segunda-feira, 12 de junho de 2017

Três poemas de Wallace Stevens



TATUAGEM

A luz lembra uma aranha.
Caminha sobre a água.
Caminha pelas margens da neve.
Penetra sob as tuas pálpebras
E espalha ali suas teias –
Duas teias.

As teias de teus olhos
Estão atadas
À carne e aos ossos teus
Como a um caibro ou capim.

Há filamentos de teus olhos
Na superfície da água
E nas margens da neve.


CANÇÃO

Há coisas esplêndidas acontecendo
No mundo,
Coelhinho.
Há uma donzela,
Mais doce que o som do salgueiro,
Mais suave que água rasa
Correndo sobre seixos.
No domingo,
Ela veste um casaco longo,
Com doze botões.
Conta isso à tua mãe.


DEPRESSÃO ANTES DA PRIMAVERA

O galo canta,
Mas rainha alguma se levanta.

Minha loura tem cabelos
Deslumbrantes,
Como o cuspo das vacas
Costurando o vento.

Uô! Uô!

Mas cocoricó
Não traz curru nenhum,
Nenhum curru-curru.

Mas rainha alguma vem
Com verde chinelinha.


* Tradução de Paulo Henriques Britto

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Dois poemas inéditos de Juan Goytisolo



DESMEMÓRIA

1
Dissolução da memória
como neve
num vaso d’água
A imagem que se esfuma,
o calor que existiu
no leito vazio.
Invalidez.
Não há
consolo em olhar
a foto desfeita,
tudo se esquece,
tudo fica para trás.

2
Desmemória que chega
pelas margens.
Datas, lugares, nomes,
apagados sem piedade.
Pedra jogada,
relvado do esquecimento.
Bagagem de luz
afrontarás o abismo,
sombra de ti mesmo
no ponto final.

3
Contempla no espelho
um corpo que não é seu.
Ser antropomorfo,
deambulou erguido
no tempo já remoto.
A vida o venceu.
Envolto em si mesmo
assiste sem memória
a sua consumação.

4
Feliz o que se morre
sem saber que se morre.
Privilégio dos ancestrais
sem rituais funerários
nem ficções de dor.
Se está e já não está.
Ascendentes e prole
não sofrem da ausência.
Placidez envolta,
ar limpo de voo.
Ser tartaruga ou cegonha.

5
Contempla-me um gato
com olhos de aristocrata inglês.
Que espera de mim?
Por que tanta fixação?
Há uma censura muda
a uma maldade que escondo?
É um convite
a expiar uma pena?
O gato não é um gato.
É minha alma e minha consciência


CINZAS

1
Cinzas
já sem brasa alguma.
Tudo consumado.
Nada é a chama
que acendeu,
o ardor que dá vida
à voz e à imagem.
Tudo se extingue
e dissipa
a embriaguez do instante

2
Ao admirar teu corpo,
de membros rijos e vigorosos,
lamento minha degenerescência
na ficção do tempo.
Impossível recolher-se
ao peito hirsuto
e ao vigor de teus braços.
O abismo de um século nos separa.
Mas tua apagada imagem,
ao fio dos anos,
desafia
o efêmero mesquinho
e me concede,
dono do espelhismo,
tua plenitude recobrada.

* Traduções de Pedro Fernandes

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Dois poemas de Marianne Moore



OS PEIXES

vade-
ando negro jade.
     Das conchas azul-corvo um marisco
     só ajeita os montes de cisco;
          no que vai se abrindo e fechando

é que
nem ferido leque.
     Os crustáceos que incrustam o flanco
     da onda ali não encontram canto,
          porque as setas submersas do

sol,
vidro em fibras sol-
     vidas, passam por dentro das gretas
     com farolete ligeireza —
          iluminando de vez em

vez
o oceano turquês
     de corpos. A correnteza crava
     na quina férrea da fraga
          uma cunha de ferro;  e estrelas,

grãos
de arroz róseos, mães-
     d'água tintas, siris que nem lírios
     verdes e fungos submarinos
          vão deslizando uns sobre os outros.

As
marcas externas
     de mau-trato estão todas presentes
     neste edifício resistente —
          todo resquício material

de a-
cidente — ausência
     de cornija, machadadas, queima e
     sulcos de dinamite — teima em
          ressaltar; já não é o que era

cova.
Repetida prova
     demonstrou que ele pode viver
     do que não pode reviver
          seu viço. O mar nele envelhece.


NÃO HÁ CISNE TÃO LINDO

“Não há água tão quieta quanto as
     fontes mortas de Versailles.” Não há cisne,
de olhar cego bistre oblíquo
e pernas gondoleantes, tão lindo
     quanto o de louça com chintz,
de olhos cor de corça e coleira
de ouro denteada a indicar de quem foi.

Alojado no candelabro de
     Luís XV, com botões de matiz de
crista-de-galo, com dálias,
ouriços-do-mar e sempre-vivas,
     no mar de ramalhetes de
polidas e esculpidas flores
ele pousa – livre e altivo. O rei é morto.

* Tradução de José Antonio Arantes