segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Três poemas Georg Heym



BERLIM I

Barris alcatroados rolavam das saídas
de depósitos escuros para os altos batelões.
Os rebocadores puxavam. A bruma da fumaça
caía fuliginosa sobre as ondas oleosas.

Dois vapores, com banda de música, vinham.
Baixaram chaminés sob o arco da ponte.
Havia fumo, fuligem e fedor sobre as vagas
imundas dos curtumes das peles marrons.

Em todas as pontes, sob as quais nos conduzia
a barcaça, ressoavam os sinais,
como um retumbar crescendo no silêncio.

Deixamo-nos levar e entramos no canal
chegando lentamente aos jardins. No idílio
víamos os fanais noturnos de enormes chaminés.


BERLIM II

A margem alta da estrada, onde estávamos,
era branca de poeira. Vimos no estreito
inúmeras pessoas: fluxo de gente e multidão,
e ao longe a metrópole erguer-se na noite.

Cheias charabãs passavam pela massa
pendiam delas bandeiras de papel.
ônibus com capotas e carros.
Automóveis, fumaça e buzinas.

Rumo ao imenso mar de concreto. Mas a oeste
vimos, na longa estrada, árvore ao lado de árvore,
a filigrana das copas sem folhas.

O sol pendia grande no horizonte celestial.
E raios vermelhos abriam o caminho da noite.
E sobre todas as cabeças, um sonho de luz.


* Trad. Marco Aurélio Werle


O DEUS DA CIDADE

Escarrapachado sobre um quarteirão,
À sua volta acampam negros ventos.
Ele olha irado, ao longe, a solidão
De últimas casas em campos nevoentos.

Baal ao pôr do sol, pança luzindo,
À volta ajoelham as grandes cidades.
De um mar de negras torres vem subindo
O eco monstruoso das trindades.

Na rua, a multidão música entoa,
Em dança coribântica exaltada.
Das chaminés fabris o incenso escoa
E sobe até ele, em fragrância azulada.

No seu sobrolho crepitam temporais.
Narcortiza-se em noite o escuro dia.
Como os abutres, esvoaçam vendavais
Em cabeleira irada, que arrepia.

Estende no escuro a mão de carniceiro.
Um mar de fogo varre, num estremecer,
Toda uma rua, que acaba num braseiro,
Até que o dia tarde a amanhecer.

* Trad. João Barrento


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Dois poemas de Aleksandr Blok



FÁBRICA

No prédio há janelas citrinas.
E à noite – quando cai a noite,
Rangem aldravas pensativas,
Homens aproximam-se afoitos.

E os portões fechados, severos;
Do muro – do alto do muro,
Alguém imóvel, alguém negro
Numera os homens sem barulho.

Eu, dos meus cimos, tudo ouço:
Ele os chama, com voz de aço,
Costas curvas, sofrido esforço,
O povo aglomerado embaixo.

Eles hão de entrar à porfia,
Hão de pôr às costas o fardo.
Riso nas janelas citrinas:
Tapearam os pobres-diabos.

1903

* Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman



RAVENA 
Tudo o que é instante, tudo o que é traço
Sepultaste nos séculos, Ravena.
Como uma criança, no regaço
Da eternidade estas, serena.

Sob os portais romanos os escravos
Já não trazem mosaicos pelas vias.
O ouro dos muros arde
Nas basílicas lívidas e frias.

Os arcos dos sarcófagos desfazem,
Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.
Nos mausoléus azinhavrados jazem
Os santos monjes e as imperatrizes.

Todo o sepulcro gela e cala,
Os muros mudos, desde o umbral,
Para não acordar o olhar de Gala,
Negro, a queimar por entre a cal.

Das pegadas de sangue e dor e insídia
O rastro já se apaga e se descora,
Para que a voz gelada de Placídia
Não se recorde das paixões de outrora.

O longo mar retrocedeu, longínquo,
As rodas circundaram as ameias,
Para que os restos de Teodorico
Não sonhem com a vida em suas veias.

Onde eram vinhedos – ruínas.
Gente e casas – tudo é tumba.
Sobre o bronze as letras latinas
Troam nas lajes como trompa.

Apenas, no tranqüilo e atento olhar
Das moças de Ravena, mudamente,
Às vezes uma sombra de pesar
Pelo irrecuperável mar ausente.

À noite, inclinado nas colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante – perfil aquilino –
Canta para mim da Vida Nova.

Maio-junho de 1909

* Tradução de Augusto de Campos

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Dois poemas de Marina Tsvetáieva



VERSOS A BLOK 

Na mão – um pássaro que cala,
Teu nome – pedra de gelo na fala.
Um movimento de lábios, só.
Teu nome – quatro sons.
Uma bola em vôo apanhada,
Um guizo na boca, de prata.

Um seixo, atirado num lago calmo,
Soluça assim, como te clamo.
Ao leve tropel do casco noturno
Alto teu nome responde.
E o gatilho a estalar soturno
Lembra-o, em nossa fonte.

Teu nome – ah, não consigo!
Teu nome – um beijo no ouvido.
No gelo morno de pálpebras rígidas,
Da neve é o beijo no mundo.
É um gole de fonte, azul e frigido.
Em teu nome, o sono é profundo.

15 de abril de 1916

* Tradução de  Aurora F. Bernardini


A CARTA

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro – uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera – o fim:
Salva de soldados,
No peito – três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor – floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.

* Tradução de Augusto de Campos