segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Três poemas de Sebastião da Gama



PEQUENO POEMA

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe... 


MEU PAÍS DESGRAÇADO

Meu país desgraçado!
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…
Meu país desgraçado!
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam! 


PUREZA

Vem toda nua 
ou, se o não consentir o teu pudor,
vestida de vermelho.

Teus tules brancos,
o azul, que desmaia,
de tuas sedas finas,
guarda-os p’ra outros dias.

Pra quando, Amor!, teu ventre, já redondo,
merecer a pureza do azul...

Sebastião da Gama nasceu em Vila Nogueira de Azeitão no dia 10 de abril de 1924. Os problemas de saúde que, por indicação médica, o levam ao ar puro da serra da Arrábida, em Setúbal. Rodeado por todas as tonalidades de verde, com o mar ao fundo, escreve verdadeiros hinos à natureza e desenvolve uma consciência ambiental. Em defesa do seu "paraíso" que começava a ser destruído pelo asfalto das estradas, funda em 1948 a Liga para a Proteção da Natureza, a primeira associação ambientalista portuguesa. Foi poeta e professor. Publicou, dentre outros, em poesia Serra-mãe, livro de estreia, em 1945, e Campo aberto (1951); grande parte de sua obra foi editada postumamente e destes destaca-se O segredo é amar. Morreu aos 28 anos, vítima de tuberculose.
  


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Edição n.15 da Revista 7faces está online



Em 2018, regularemos as edições semestrais da Revista 7faces. Por isso, o leitor que já for atento ao nosso trabalho redobre sua atenção: serão três edições até o final do ano – todas em processo de finalização. A primeira delas chega online agora, neste dia 29 de janeiro. É a de n.15. Homenageia o poeta português Eugénio de Andrade, reconhecidamente um dos mais importantes nomes da poesia de língua portuguesa contemporânea.

No editorial “Da maneira mais simples, outros ritmos, outros modos”, título construído com dois títulos de dois poemas de Eugénio de Andrade, Pedro Fernandes, editor da Revista 7faces, sublinha que a poética do poeta inaugura “um universo particular cujo interesse é favorecer uma revelação do mundo, desde sua forma mais simples à mais complexa, aquela capaz de não ser justificada pela mera força antagônica com que fomos levados a forjar o mundo”.

A homenagem a Eugénio de Andrade é marcada por um rico dossiê que inclui fotografias, reprodução de manuscritos, poemas e ensaios de leitores versados no estudo da obra do poeta Prêmio Camões: Gabriel José Innocentini Hayashi, Paulo Brás, Maria Vaz, Maria João Reynaud, Paula Mendonça e Tânia Ardito.

A novidade nesta edição é a inauguração da seção “Memória”, nascida de uma recorrência já marcada em números anteriores. Nela se publicam textos que circularam noutra mídia e já agora estão fora de circulação embora não tenham perdido a relevância para a leitura crítica da obra do poeta homenageado. No caso da edição em questão reproduzimos um texto do Professor Óscar Lopes que está em Uma espécie de Música (A poesia de Eugénio de Andrade), editado na coleção de Estados Portugueses (Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1980) é há muito fora de circulação em Portugal e ainda inédito no Brasil: “Morte e ressurreição dos mitos na poesia de Eugénio de Andrade”.

Completa a edição, dois cadernos de poesia, com rica incursão pela cena poética portuguesa atual, dentre os poetas brasileiros: Carla Valente, Clara Baccarin, Custódia Pereira, Helena Loza, Joaquim Cardoso Dias, Laryssa Costa, Lucas Repetto, Manuel Pintor, Sandra Fonseca Matias, Susana Canais, Alberto Arecchi, Carla Carbatti, Marcelo Grisa, Maria Vaz e Pablo Bruno de Paula dos Santos.

Tudo disponível online no site da Revista 7faces.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os nomes da edição n.15 da Revista 7faces

Foto: Alfredo Cunha 

Quando apresentamos nosso cartão de boas festas no final de 2017 em nossa página no Facebook – e depois repetimos em nosso Twitter –, dissemos que a próxima edição da Revista 7faces sairia com homenagem à obra de Eugénio de Andrade. O poeta português é autor de uma vasta obra que o coloca entre os maiores nomes da poesia de língua portuguesa contemporânea. Reconhecimento que é corroborado pela entrega do Prêmio Camões em 2001.

Reforçamos a notícia e acrescentamos quais são os poetas apresentados neste novo número: Carla Valente, Clara Baccarin, Custódia Pereira, Helena Loza, Joaquim Cardoso Dias, Laryssa Costa, Lucas Repetto, Manuel Pintor, Sandra Fonseca Matias, Susana Canais, Alberto Arecchi, Carla Carbatti, Marcelo Grisa, Maria Vaz e Pablo Bruno de Paula dos Santos.

Leia poemas de Eugénio de Andrade aqui.