segunda-feira, 21 de maio de 2018

Edição n.16 da Revista 7faces está online


"Em julho de 2018 poderia ser comemorado o lançamento de Apresentação do Rosto (Ulisseia, 1968), um dos livros mais polêmicos de Herberto Helder e que já quase não existe à mão. O condicional é aplicado não fosse o livro um advento tumultuoso na trajetória literária de um dos maiores escritores portugueses do nosso tempo: o romance autobiográfico ou a autobiografia romanceada foi alvo de censura pela Polícia Política dias após a impressão de seus 1.500 exemplares. Quase todo o material foi incinerado assim que apreendido pelo P.I.D.E. A pequena parcela que escapou à destruição se encontra em alguns pontos específicos do mundo, seja em bibliotecas de universidades, entre as raridades de alfarrabistas exigentes ou então nos cofres de seletos estudiosos de Herberto Helder." 

chamamento é do poeta Leonardo Chioda, o principal organizador da edição 16 da Revista 7faces que foi apresentada hoje. A obra poética de Herberto Helder, incluindo Apresentação do Rosto se levarmos em conta que diversos textos aí apresentados foram "remanejados ou reescritos para outros títulos como Photomaton & Vox, Vocação Animal e Os Passos em Volta", é o tema central deste número.

A edição reúne alguns dos principais estudiosos da obra de Helder como Eduardo Quina, António Fournier, Rafael Lovisi Prado, Maria Lúcia Dal Farra, Claudio Willer, Tatiana Picosque e Ana Cristina Joaquim.  Mariana Viana compôs um ensaio com imagens que recriam o livro Os passos em volta. Além de manuscritos e fotografias inéditas do poeta português.

O n.16 da 7faces traz poemas de Mariana Basílio, Eduardo Quina, Hugo Lima, Valter Hugo Mãe, Camila Assad Quintanilha, Gabriel Faraco, Laura Elizia Haubert, Carlos Arthur Rezende Pereira, Cristiane Bouger, Jorge de Freitas, Diogo Bogéa, José Pascoal, Lucas Perito, Antônio LaCarne, Gabriel Stroka Ceballos, Diego Ortega dos Santos, Gregório Camilo, Guilherme Lessa Bica, José Huguenin e Fabrício Gean Guedes. 

O site da revista, onde se pode encontrar esta e outras edições é este.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

Quatro poemas de Maria Judite de Carvalho




Eu dantes tinha olhos verdes
Só agora reparei
Verdes, viam tudo verde
por que eram verdes, não sei.

Sorriam àquela flor
Que havia na água parada
Verde flor, na verde água
da vida transfigurada.

Hoje olham e reconhecem
que há muito mais cores para ver.
Cor de flor, que logo esquecem
Cor de charco a apodrecer.

*

Era um rio quente
sem fundo nem fim
ausente-presente
bem dentro de mim.

Quase que parado
via-o eu às vezes
em dia feriado
de seis em seis meses.

Os barcos quietos
boiavam, luziam,
fechados, secretos,
e logo seguiam.

Os velhos, fumando,
olhavam, sem ver,
o rio passando
sem nunca correr.

A virgem tranquila,
terrena, bisonha,
mete os pés na argila,
olha a água e sonha.

Há hoje um cheiro a partir
um cheiro a não estar aqui,
um cheiro a mar verde-pálido,
de algas soltas, sem raízes.
Estou no cais mas não saí.
Tenho um passaporte inválido
para todos os países.


*

Somos do país do sim
o da tristeza em azul
Tudo o que existe é assim
neste sul.
Mostramos o sol e o mar
e vendemo-lo a quem tem,
para podermos aguentar
o que vem
Ah país de fato preto
meu país engravatado
do grande amor em soneto
da grande desgraça em fado.
Antes este veio
descia sem pressa
não era tão frio
como hoje parece.

• 

Maria Judite de Carvalho nasceu em 18 de setembro de 1921, em Lisboa. Frequentou o curso de Filologia Germânica. Em 1949, ano quando se casou com o escritor Urbano Tavares Rodrigues, foi viver na França, em Montpellier e a seguir em Paris. No retorno, em 1959, publicou Tanta gente Mariana. Dois anos depois, com As palavras poupadas ganhou o Prêmio Camilo Castelo Branco. Foi redatora dos jornais Diário de Lisboa (1968-75), da revista Eva (até 1975) e de O Jornal (1976- 1983). Escreveu romances, contos, crônicas e poemas. Morreu em 18 de janeiro de 1998, em Lisboa.



segunda-feira, 7 de maio de 2018

Dois poemas de Raul Bopp




FAVELA

Meio-dia.

O morro coxo cochila.
O sol resvala devagarzinho pela rua
torcida como uma costela.

Aquela casa de janelas com dor-de-dente
amarrou um coqueiro do lado.

Um pé de meia faz exercícios no arame.

Vizinha da frente grita no quintal:
— João! Ó João!

Bananeira botou as tetas do lado de fora.
Mamoeiros estão de papo inchado.

Negra acocorou-se a um canto do terreiro.
Pôs as galinhas em escândalo.

Lá embaixo
passa um trem de subúrbio riscando fumaça.

À porta da venda
negro bocejou como um túnel.


NEGRO


Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens.
As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história.

A sua primeira inscrição em baixo-relevo
foi uma chicotada no lombo.

Um dia
atiraram-te no bojo de um navio negreiro.
E durante longas noites e noites
vieste escutando o rugido do mar
como um soluço no porão soturno.

O mar era um irmão da tua raça.

Uma madrugada
baixaram as velas do convés.
Havia uma nesga de terra e um porto.
Armazéns com depósitos de escravos
e a queixa dos teus irmãos amarrados em coleiras de ferro.

Principiou aí a sua história.

O resto,
o que ficou para trás,
o Congo, as florestas e o mar
continuam a doer na corda do urucungo.



Raul Bopp nasceu em 4 de agosto de 1898, em Pinhal, Santa Maria, Rio Grande do Sul. Com Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, entre outros, fez parte do movimento antropofágico, vanguarda do modernismo brasileiro que marcam em definitivo a história da cultura nacional. Seu poema mais conhecido é Cobra Norato, cuja primeira versão foi publicada em 1931. Morreu em 2 de junho de 1984, no Rio de Janeiro.