domingo, 28 de setembro de 2014

Um poema inédito de Adonis



EM QUE ME APOIAR?

Em que me apoiar?

Na quadratura do zero, no triângulo do desejo, nas pirâmides de ar ou nas tendas da história? Nos ventos que se evaporam dos cemitérios ou num pombo faminto? Tem a flor afinal um gargalo oco? Não é a mariposa o mesmo que uma chama?

Devo perguntar como acabará este mundo ou como começou este inferno?

Como fazer-me amigo dos lobos, matar esta humanidade encolhida entre minhas garras.    

Meu ponto de vista ajustado à minha visão, e esta a aquele, acompanham-no em seu país ao perfume de uma rosa morta.

As feridas umedecem o vestido de um céu pobre que aprende a contar conosco:

O pássaro está passando

A jaula não tem fim.


O sol ama os caminhos dos maias.


* Poema incluído num catálogo a ser editado  pelo blog Letras in.verso e re.verso com inéditos do poeta Adonis. A tradução é da edição publicada no México por esses dias, Zócalo


sábado, 13 de setembro de 2014

Três inéditos de Murilo Mendes




Alguém

Alguém é absurdo
lúcido
nutrido de Kafka
Descartes
alguém toma a insônia como se fosse
um comprimido
alguém sofre de guerra
como outro sofre de câncer.
Alguém sabe que a matéria
é metafísica.

Existirão de verdade para ele
o radar
a lagartixa
o estruturalismo
a telepatia?

Alguém odeia as ditaduras
as batatas fritas
alguém se vê circundado por insetos ou por hipóteses

Alguém é um romântico irreversível:
a cibernética não mudará sua cabeça.


A viagem

Serei um androide?
Talvez eu seja um produto
da defasagem tecnológica
entre Juiz de Fora e Pequim.

Na época da minha infância
eu queria ir do Brasil à China
a cavalo.

A viagem se realizou
Ninguém se deu conta

Nem mesmo eu.


Retorno

Voltarei um dia
para saudar o reino mineral
onde a desordem é mínima.


***

Em 2014, a obra de Murilo Mendes ganha reedição pela Cosac Naify. Além disso sai uma Antologia poética, com compilação inédita de poemas selecionados por Júlio Castañon Guimarães, da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e Murilo Marcondes de Moura, professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo. Os três poemas aqui publicados pertencem a essa antologia.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Um poema de António Lobo Antunes



Poema aos homens constipados 

Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses, como me sinto
Já vejo a morte, nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo os demónios, nas suas danças
Tigres sem listras, bodes de tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes, que foi aquilo!
Não é a chuva, no meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo
Não é o vento, a cirandar
Nem são as vozes, que vêm do mar
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a santinha, à cabeceira
Compõe-me a colcha, fala ao prior
Pousa o Jesus, no cobertor
Chama o doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada
Faz-me tisanas, e pão-de-ló
Não te levantes, que fico só
Aqui sozinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

De “Letrinhas de Cantigas”