domingo, 29 de junho de 2014

Quatro poemas de Czesław Miłosz




Cardo, urtiga

(...) le chardon et la haute
Ortie et l'ennemie d'enfance belladonne
O. Miłosz

Cardo, urtiga, bardana, beladona
Têm futuro. Deles são os baldios,
Os trilhos enferrujados, o céu e o silêncio.

Quem serei eu para as gerações vindouras,
Quando depois da babel das línguas se premiar o silêncio?

Devia ter.me resgatado o dom de versejar,
Mas tenho de estar pronto para a terra não gramatical.

Com o cardo, a urtiga, a bardana, a beladona,
E sobre eles uma brisa, uma nuvem sonolenta, o silêncio.




Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.


Amor
Amor significa olharmo-nos
Como se olha as coisas não familiares,
Pois somos apenas uma entre milhares.
E quem assim se olha, mesmo sem saber,
De muitas mágoas o coração vai proteger.
E chama-no de antigo o pássaro e a árvore.

Então sim, quer desfrutar de si e de tudo
Para que tudo brilhe no clarão da plenitude.
E não importa não saber ao que servir,
Nem sempre serve melhor quem sabe.

* Estes poemas são da tradução portuguesa Czesław Miłosz e Wisława Szymborska, Alguns Gostam de Poesia. Antologia, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2004.


Conversa com Jeanne

Não vamos mais falar de filosofia, Jeanne, chega.
Tantas palavras, tanto papel, quem aguenta?
Falei a você a verdade, quanto ao meu alheamento.
Parei de me preocupar com minha vida malformada.
Não é melhor nem pior do que as tragédias humanas comuns.

Durante mais de trinta anos travamos esse nosso debate.
Como agora, na ilha sob os céus dos trópicos.
Fugimos de um pé-d’água, logo depois abre o sol, outra vez,
E fico aturdido, deslumbrado, com a essência esmeralda das folhas.

Submergimos na espuma, onde as ondas quebram,
Nadamos para longe, para onde o horizonte é um emaranhado de bananeiras,
E palmeiras erguem pequenos moinhos de vento.
Estou sendo acusado: de que não me ponho à altura da minha obra,
Não exijo o bastante de mim mesmo,
Como podia ter aprendido com Karl Jaspers,
Que meu desprezo pelas opiniões desta época vem ficando mais frouxo.

Deslizo em uma onda e olho para as nuvens brancas.
Tem razão, Jeanne, não sei como me interessar pela salvação da minha alma.
Alguns são chamados, outros se viram como podem.
Eu aceito: o que coube a mim está bem.
Não me arrogo a dignidade de um velho sábio.
Intraduzível em palavras, escolho meu lar no que é agora,
Em coisas deste mundo, que existem e, por isso, nos encantam:
A nudez das mulheres na praia, os cones cor de cobre de seus seios,
Hibiscos, alamandas, um lírio vermelho, devorar
Com meus olhos, lábios, língua, o suco de goiaba, o suco de la prune de Cythère,
Rum com gelo e melaço, orquídeas trepadeiras
Em uma floresta tropical, onde as árvores se sustentam nas hastes de suas raízes.

A morte, você me diz, a minha e a sua, anda cada vez mais perto,
Sofremos e este pobre mundo ainda não foi o bastante.
A terra negra e púrpura das hortas
Estará aqui, quer alguém a veja, quer não.
O mar, como hoje, vai exalar seu hálito das profundezas.
Diminuindo, desapareço na imensidão, cada vez mais livre.

* Tradução de Rubens Figueiredo publicada na revista Inimigo rumor, n.6, de julho de 1996.