terça-feira, 26 de agosto de 2014

Julio Cortázar poeta: dois inéditos



AVÓ MORTA
O anjinho que tantos anos desenhei ao pé de umas cartas,
e o à bientôt das despedidas, e esse nome sobre
hão de seguir em alguma parte, hão de ser algo vivo,
não é possível que nada sobreviva dessa ternura e essa graça.
De alguma maneira nos seguiremos escrevendo sempre,
alguém chamará às portas e nos entregará as cartas,
tu estarás bem e eu te contarei sobre viagens,
tu estarás bem e eu serei o que beija
a borda do papel onde uma letra fina
me envolve o coração em savanas, me dá boas noites
e sai silenciosa para que chegue o sonho.


OBJETOS PERDIDOS
Por veredas de sonho e moradias silenciosas
teus verões prestados me alucinam com seus cantos
Uma cifra vigilante e sigilosa
vai pelos arrabaldes chamando-me e chamando-me
mas o que falta, diz-me, no cartão pequeno
onde estão teu nome, tua rua e teu desvelo
se a cifra se mescla com as letras do sonho,

se somente estás onde já não te busco.

* Os dois poemas foram publicados na edição ainda inédita no Brasil, Cortázar de la A a la Z e traduzidos por Pedro Fernandes.