segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Os nomes da edição n.10 do caderno-revista 7faces



A data de apresentação da edição 10 do caderno-revista 7faces é o dia 06 de fevereiro. O número em questão homenageia um dos nomes mais significativos da cena poética portuguesa (sim, atravessamos o Atlântico!): Sophia de Mello Breyner Andresen. Sobre a poeta são editados três ensaios de pesquisadores da sua obra.

Nos dois cadernos que sustentam a edição os nomes e a poesia de Alexandre Guarnieri, Bianca Coggiola, Rodrigo Della Santina, Stefano Calgaro, Suzy Freitas, Victor Prado, Guilherme Dearo, Nathan Matos Magalhães, Douglas Siqueira, José Carlos Brandão, José de Paiva Rebouças e Ricardo Escudeiro. E assinalando os dois anos da publicação da edição especial em homenagem a José Saramago publicaremos um material inédito de Rui Santos sobre o escritor português. Toda edição em questão é ilustrada pela artista Rebeca Rasel que se dedicou a catar poesia através de imagens.

Daí a alguns dias apresentaremos ainda o catálogo com os poemas de Allen Ginsberg traduzidos pelo nosso editor Cesar Kiraly.  E, por falar neles (os poemas), os leitores já podem visualizar uma amostra desse trabalho através de um conjunto de vídeos com leituras do próprio Cesar, Pedro Fernandes e Filippi Fernandes.  

E, claro, fica sempre o convite para uma visita ao site do caderno-revista a fim de apreciar as edições anteriores.


domingo, 25 de janeiro de 2015

Dois poemas de Saúl Dias



JARDIM

Jardim
no outono desbotado.

Dispersas pelo chão
as folhas são
losangos de Arlequim
com laivos de purpurina.

Uma doirada neblina
paira no ar parado.

E, a um canto,
esquecido num banco,
o chapéu entrançado
de Colombina.


ENCONTRO

Encontro-te
sempre na mesma rua
(a ti ou à tua sombra?),
despertando
mil quimeras
candentes,
remexendo as cinzas quentes
de outras eras.

Ora vens nua,
ora vestida.
Mas, sem ti, a rua
não existiria,
aniquilada
- como um navio morto
num esquecido porto.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Dois fragmentos da poesia de Lord Byron



72
Não vivo por mim mesmo. Sou só um
Elo do que me cerca, mas se a altura
Das montanhas enleva-me, o zum-zum
Das cidades humanas me tortura.
A criação só errou na criatura
Presa à carne, onde paro, relutante,
Buscando, libertada a alma pura,
Mesclar-me ao céu, aos montes, ao ondeante
Plaino do oceano, às estrelas, e ir adiante.


113
O mundo eu não o amei, nem ele a mim;
Não bajulei seu ar vicioso, nem dobrei
Aos seus idólatras o joelho do sim. -
Meu rosto não abriu risos ao rei
Nem repetiu ecos; a turba, eu sei,
Não me inclui entre os seus. Vivi ao lado
Deles, porém sem ser da sua grei;
E à mortalha da sua mente atado
Estaria se não me houvesse precatado.

* Tradução de Augusto de Campos

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Um poema-manifesto de Pedro Lemebel




MANIFESTO (FALO POR MINHA DIFERENÇA)[1]

Não sou Pasolini pedindo explicações
Não sou Ginsberg expulso de Cuba
Não sou uma bicha disfarçada de poeta
Não preciso de disfarces
Aqui está minha cara
Falo por minha diferença
Defendo o que sou
E não sou tão esquisito
Me repugna a injustiça
E suspeito dessa dança democrática
Mas não me fale do proletariado
Porque ser pobre e bicha é pior
Há que ser ácido para suportar
É ter que dar voltas nos machinhos da esquina
É um pai que te odeia
Porque o filho desmunheca
É ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro
Envelhecidas de limpeza
Embalando de doença
Por maus modos
Por má sorte
Como a ditadura
Pior que a ditadura
Porque a ditadura passa
E vem a democracia
E desvia para o socialismo
E então?
Que farão com nossos companheiros?
Irão nos amarrar às tranças em fardos
com destino a um sidário[2] cubano?
Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma
Como no barco do general Ibáñez
Onde aprendemos a nadar
Mas ninguém chegou até à costa
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas
Por isso as casas de caramba[3]
Brindaram com uma lágrima negra
Aos carneiros comidos pelos caranguejos
Este ano que a Comissão de Direitos Humanos
Não lembra
Por isso companheiro te pergunto
Existe ainda o trem siberiano
da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
Quando minha voz fala demasiado doce
E você?
Que fará com essa lembrança de meninos
Nos pajeando e outras coisas
Nas férias de Cartagena?
O futuro será em preto e branco?
O tempo correrá noite e dia
sem ambiguidades?
Não haverá uma bichona em alguma esquina
desequilibrando o futuro de seu novo homem?
Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
O fuzil eu deixo a você
Que tem o sangue frio
E não é medo
O medo foi indo embora de mim
Atacando com facadas
Nos inferninhos sexuais onde andei
E não se sinta agredido
Se te falo dessas coisas
E te olho o volume
Não sou hipócrita
Acaso os peitos de uma mulher
Não o faz baixar os olhos?
Você não acredita
Que sozinhos na serra
Algo nos aconteceria?
Embora depois me odiasse
Por corromper sua moral revolucionária
Tem medo que se homessexualize a vida?
E não falo de te enfiar e tirar
e tirar e te enfiar somente
Falo de ternura companheiro
Você não sabe
Como custa encontrar o amor
Nestas condições
Você não sabe
O que é carregar essa lepra
As pessoas ficam à distância
As pessoas compreendem e dizem:
É viado mas escreve bem
É viado mas é um bom amigo
Super-boa-onda[4]
Eu não sou boa-onda
Eu aceito o mundo
Sem lhe pedir essa boa-onda
Mas ainda assim riem
Tenho cicatrizes de risos nas costas
Você acredita que eu penso com o pau
E que à primeira parrillada[5] da CNI[6]
Eu ia soltar tudo
Não sabe que a masculinidade
Nunca a aprendi nos quartéis
Minha masculinidade me ensinou a noite
Atrás de um poste
Essa masculinidade de que você se gaba
Te enfiaram em um regimento
Um milico assassino
Desses que ainda estão no poder
Minha masculinidade não recebi do partido
Porque me rechaçaram com risadinhas
Muitas vezes
Minha masculinidade aprendi militando
Na dureza desses anos
E riram da minha voz afeminada
Gritando: vai cair, vai cair
E embora você grite como homem
Não conseguiu que caísse
Minha masculinidade foi amordaçada
Não fui ao estádio
E me peguei aos trancos pelo Colo Colo[7]
O futebol é outra homossexualidade encoberta
Como o boxe, a política e o vinho
Minha masculinidade foi morder as provocações
Engolir a raiva para não matar todo mundo
Minha masculinidade é me aceitar diferente
Ser covarde é muito mais duro
Eu não dou a outra face
Dou o cu companheiro
E esta é a minha vingança
Minha masculinidade espera paciente
Que os machos fiquem velhos
Porque a esta altura do campeonato
A esquerda corta seu cu flácido
No parlamento
Minha masculinidade foi difícil
Por isso não subo nesse trem
Sem saber aonde vai
Eu não vou mudar pelo marxismo
Que me rechaçou tantas vezes
Não preciso mudar
Sou mais subversivo que vocês
Não vou mudar somente
Pelos pobres pelos ricos
Ou outro cachorro com esse osso
Tampouco porque o capitalismo é injusto
Em Nova Iorque as bichas de beijam na rua
Mas esta parte deixo para você
Que tanto se interessa
Que a revolução não se apodreça completamente
A vocês entrego esta mensagem
E não é por mim
Eu estou velho
E sua utopia é para as gerações futuras
Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada
E eu quero que voem companheiro
Que sua revolução
Dê a eles um pedaço de céu vermelho
Para que possam voar


Tradução e Notas de Nina Rizzi para a Revista Ellenismos, 27: des-construindo o gênero.

[1] Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda em setembro de 1986, em Santiago, Chile. Leia o poema original aqui

[2] Apesar de Sidario ser um nome próprio muito comum no Chile, o autor o usa como substantivo para denominar clínicas para tratamento de soropositivos. Cf.: livro de crônicas de Pedro Lemebel chamado “Loco afán: crónicas de sidariorio”, com textos que tratam, sobretudo, da marginalização de travestis e AIDS.

[3] Casas onde se cantam tonadillas. O termo alude à cantora tonadillera do século XVIII Maria Antónia Fernández, cujo apelido era Caramba.

[4] No original “buena-onda”, um trocadilho: alegre/ fresco.

[5] Prato típico chileno com diversos tipos de carne e frutos do mar, naturalmente no poema se trata de um trocadilho.

[6] CNI – Central Nacional de Informaciones de Chile – foi um organismo de inteligência do regime militar chileno. Criada em 1977, foi responsável por inúmeros casos de infiltração política, assassinatos, sequestros e tortura aos opositores do regime, além de estar relacionada ao roubo de banco e o tráfico de drogas e armas. Foi dissolvida em 1990, pouco antes do retorno da democracia. 
Muitos de seus agentes então foram realocados em outros cargos públicos, inclusive de segurança.

[7] Time de futebol chileno.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Dois poemas de Robert Frost



SEMEANDO

Vens me tirar de meu noturno ofício
À hora certa do jantar; mas, verás,
Não poderás impedir-me o vício
De enterrar, da macieira, as pétalas
(simples pétalas, sim, mas não sozinhas,
misturadas que estão ao feijão e ao milho)
E te fazer esquecer o que te traz
Aqui e te tornar, assim, tão isso,
Similar a mim, amante da terra.
Sim, o Amor está no semear e nisso
De esperar e ver brotar aquelas
Que vão manchar, daninhas, o solo difícil
Da arqueada e forte muda, pequena dona


FOGO E GELO

Uns dizem que o mundo em fogo termina,
Outros, que em gelo se apaga.
E eu já provei de desejo, que é sina
Por isso repito que em fogo termina.
Mas se mais uma vez nosso mundo se estraga,
Só sei que na vida provei tanto ódio voraz
Que posso dizer que, se em gelo se apaga,
Tanto fez como tanto faz,
Posto que tudo se acaba.

De ombros que empurram as coisas da terra.

* Tradução de Dirlen Loyolla

sábado, 10 de janeiro de 2015

Dois poemas de Gabriela Mistral


GOTAS DE FEL
Não cantes: sempre fica
à tua língua apegado
um canto: o que faltou ser enviado.

Não beijes: sempre fica,
por maldição estranha,
o beijo a que não chegam as entranhas.

Reza, reza que é bom; mas reconhece
que não sabes, com tua língua avara,
dizer um só Pai Nosso que salvara.

E não chames a morte de clemente,
porque, na carne que a brancura alcança,
uma beirada viva fica e sente
a pedra que te afoga
e o verme voraz que te destrança.

* Tradução Ruth Sylvia de Miranda Salles


SEGUNDO SONETO DA MORTE           
Este longo cansaço irá ser grande um dia
e a alma dirá ao corpo que não quer
arrastar o seu peso ao longo desta vida
por onde os homens vão, felizes por viver.

Sentirás que ao teu lado cavam brutalmente,
que outro hóspede chega à serena cidade.
Vou esperar que alguém me cubra completamente
e depois falaremos uma eternidade!

Só então saberás porque é que, ainda imaturo,
para as profundas fossas o teu corpo iria
aí dormir tranquilo, aí permanecer.

E então far-se-á luz no campanário escuro:
saberás que entre nós sinais de astros havia
e que, quebrando o pacto, tinhas de morrer.


* Tradução Fernando Pinto do Amaral