sexta-feira, 31 de julho de 2015

Nova edição do caderno-revista 7faces apresenta inéditos de Manoel de Barros





Com homenagem a Manoel de Barros a décima primeira edição do caderno-revista 7faces reúne a poesia de Ondjaki, Jørge Pereira, Izabela Orlandi, Juliana Hollanda, Valter Hugo Mãe, Fernanda Fatureto, Sebastião Ribeiro, Lucas Perito, Mia Couto (um inédito), Marcelino Freire (um inédito), Samuel Pimenta, Abilio Maiworm-Weiand, Mauricio Goldani Lima, Sandro Teixeira, Ricardo José Pérez Segura e Bruna Pianto. Somam ainda os ensaios de Cesar Kiraly, Vicente Franz Cecim e Maria Heloísa Martins Dias e os depoimentos de José Castello, Martha Barros, José Eduardo Agualusa sobre a obra do poeta homenageado. A edição reúne também fotografias raras e inéditos de Manoel de Barros cedidos pelo poeta Douglas Diegues. Enfim, uma edição necessária! 

Disponível num clique aqui.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Dois poemas de Guilherme de Almeida


ESTA VIDA

Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.


CINEMA 

Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Dois poemas de Nelson Ascher



MAIS E /OU MENOS
Exegi monumentum

Ergui pra mim, mais alto
que o Empire State Building, menos
biodegradável mesmo
que o urânio, um monumento

que, à chuva ácida ileso
e imune à inversão térmica,
não tem turnover nem
sairá de moda nunca.

Não morrerei de todo:
cinqüenta ou mais por cento
de meu ego hão de incólumes
furtar-se à obsolescência

programada e hei de estar
no Quem É Quem enquanto
Hollywood dê seus Oscars
anuais ou supermodels

desfilem mudas pelas
mil e uma passarelas.
Onde transborda infecto
nosso Tietê, nas várzeas

garoentas sempre cujos
quatrocentões votavam
antanho em Jânio Quadros,
lembrar-se-ão de que fui

quem adaptou primeiro
em Sampa, ao berimbau
tropicalista, Horácio.
Credita-me tais méritos

e põe durante este ano
fiscal, Academia
Sueca, em minha conta
a grana do Nobel.


ADIVINHAÇÃO

p/ d. p. aos 70

O que é o que é
que, quando se entrecruzam
à beira do silêncio
sintagma e paradigma,

obriga a língua a dar
com a linguagem nos dentes,
deixa as palavras todas
com a língua de fora?

O que é o que é
que, onde "o amor e, em sua
ausência, o amor" ou "manchas
solares confabulam",

deixa a linguagem boqui-
aberta, sem palavras,
e obriga os linguarudos
a engolirem a língua?

O que é, o que é
que edípico e antropófago
bolina e morde, morde e
bolina a própria língua

materna até que doa
com gosto? - É a poesia
que o dolce software nuovo
contém. Pois é: poesia.


* De Parte Alguma: poesia (1997-2204)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Os nomes da edição n.11 do caderno-revista 7faces



É sempre com satisfação que prevemos a chegada de mais uma edição do caderno-revista 7faces. O periódico chega ao sexto ano on-line e terá, como sempre teve, a apresentação de excelentes novidades. Homenageamos Manoel de Barros. Sobre o poeta brasileiro apresentamos ensaios de Maria Heloísa Martins Dias, Vicente Franz Cecim e Cesar Kiraly. 

Os poetas que estão neste número são Valter Hugo Mãe, Ondjaki, Samuel Pimenta, Abilio Maiworm-Weiand, Izabela Orlandi, Fernanda Fatureto, Juliana Hollanda, Jørge Pereira, Maurício Goldani Lima, Ricardo José Pérez Segura, Sebastião Ribeiro, Sandro Teixeira, Bruna Piantino e Lucas Perito.

A edição vem a lume dia 30 de julho. Estejam atentos!