segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Três poemas de Samuel Beckett



SOU AREIA QUE SE ESVAI

sou esta areia que se esvai
entre o cascalho e a duna
a chuva de Verão chove-me na vida
sobre mim a vida que me foge persegue-me
e vai acabar no dia do começo

caro instante vejo-te
nesta névoa que se levanta
quando não tiver de pisar estas longas soleiras movediças
e viver o espaço de uma porta
que se abre e que se fecha

* Tradução Manuel Portela


INSTANTE

Que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas
Onde o ser só dura um instante e onde cada instante
Transborda para o vazio o esquecimento de ter existido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se anulam
Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios
Curvando-se a pedir socorro pedir amor
Sem este céu posto de pé
Sobre o pó do seu lastro

Que faria eu eu faria como ontem e como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não estou sozinho
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço incontrolável
Sem voz no meio das vozes
Que se fecham comigo.

* Tradução de Mário Carvalheira


CASCANDO

1

fosse apenas o desespero da
ocasião da
descarga de palavreado

perguntando se não será melhor abortar que ser estéril

as horas tão pesadas depois de te ires embora
começarão sempre a arrastar-se cedo de mais
as garras agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos os velhos amores
órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus
sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do
que nunca
com a fome negra a manchar-lhes as caras
a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado
nem nove meses
nem nove vidas


2

a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a revolver outra vez no coração
amor amor amor pancada da velha batedeira
pilando o soro inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem


3

a não ser que te amem


* Tradução de Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Quatro poemas de Vera Pavlova



NO INVERNO UM ANIMAL

No inverno – um animal
Na primavera – uma planta
No outono – uma ave
O resto do tempo sou uma mulher


OLHOS MEUS

Olhos meus
por que estão tristes
apesar de me sentir alegre
palavras minhas
por que são tão rudes
apesar de ser terna
atos meus
por que são tão estúpidos
apesar de ser inteligente
amigos meus
por que estão cansados
apesar de ser tão forte


A JOVEM DORME ASSIM

a jovem dorme assim
como se alguém estivesse sonhando-lhe
a mulher dorme assim
como se amanhã fosse estourar uma guerra
a anciã dorme assim
como se bastasse fingir-se de morta
o morto e a morte passam
pouco além do sonho


PLENA

Plena
sinto tua carne
tão dentro de mim,
que já não a sinto
sobre mim
totalmente.
Acaso estás todo tu
dentro de mim?
Ou estás
fora
e só te imaginei?

* A poeta Valeria Guzmán ofereceu estas traduções diretamente do russo em espanhol e foi a partir da versão espanhola que Pedro Fernandes traz os poemas em língua portuguesa.