sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Dois poemas inéditos de Pablo Neruda



Teus pés toco na sombra, na luz as tuas mãos
e no voo me guiam os teus olhos de águia
Matilde, com os beijos que aprendi de tua boca
meus lábios aprenderam a conhecer o fogo.
Oh pernas herdadas da absoluta avena
cereal, estendida a batalha
coração de campina
quando em teus seios pus minhas orelhas
meu sangue* propagou tua sílaba araucana

* trecho ilegível


E os cavalos onde estão?
De tanto viver e morrer
as pessoas bem-educadas
de tanto dizer bons-dias,
dizer adeus com parcimônia.
não se despediram a tempo
dos vegetais cavalos

Eu montei uma gota de chuva
eu montei uma gota d'água
mas tão pequeno era então
que me escorreguei na terra
e perdia a montaria
entre raízes, ferraduras
agora o homem está ocupado
e não mira o bosque profundo
já não investiga a folhagem
nem lhe caem do céu as folhas
está ocupado o homem agora
ocupado em cavar sua cova.

Há que ver o que é o silêncio
nos entornos de Valdivia
por isso não conhecerá
a comunidade do subsolo
a comunhão das raízes
pois estes falecidos mortos
morreram antes de morrer.

No entanto, por meu juízo
o coração é uma folha

o vento a faz palpitar

* Tradução de Alexei Bueno