terça-feira, 1 de setembro de 2015

Dois poemas inéditos de Gastão Cruz



Até tornar-se fogo

As carruagens cheias como praças
que se movem à luz geral do ensaio
repetem dia a dia a mesma viagem:

os versos partem para a humanidade
mas a humanidade para onde parte?
Sabemos as paragens em que saem

e entram os que irrompem pelo palco;
até tornar-se fogo há-de crescer
continuamente a luz mortal do ensaio

Peregrinos

Os peregrinos deslizam nas paredes. Silhuetas a arder sobre um fundo rugoso.
Carlos de Oliveira, Finisterra

Toda essa gente dos transportes públicos
diariamente em trânsito parece
mover em sentido único um corpo que arrefece

Viste passar espectros vindos
do espelho informe em que também te vês
romeiros quem sois vós que destruís
a vossa imagem desistindo dela

Filhos fostes; trazidos na corrente
do fogo, regressais
ao presente e chamais-vos ninguém

* Poemas do livro Óxido, Assírio & Alvim, 2015