sexta-feira, 29 de abril de 2016

Três poemas de Yannis Ritsos



AGUARDANDO SUA EXECUÇÃO

Lá, mantido contra o muro, ao amanhecer, seus olhos
       descobertos,
enquanto doze armas são-lhe apontadas, ele com calma sente
que é jovem e tem boa aparência, que deseja estar bem barbeado,
que o horizonte distante, rosa pálido, se converte nele
– e, sim, que seus genitais conservam seu próprio peso,
há algo triste na excitação deles – aí onde
      os eunucos miram,
e para onde apontam; – se converteu já na estátua
de si mesmo?
Ele, vendo-se lá, nu, num dia brilhante
de verão grego, na praça, – olhando para o
que está no alto
ele mesmo depois os ombros da multidão, por trás
de apressados turistas de grandes nádegas,
por trás das três velhas falsas de chapéus pretos.


DISTANCIAMENTO

Desapareceu ao fundo da rua
A lua havia saído já.
Um pássaro mexeu-se entre as árvores.
Uma história comum, simples.
Ninguém havia notado nada.
Entre os dois postes,
um grande charco de sangue.


ENUMERAÇÃO

A gente fica na rua, olha.
Os números sobre as portas não significam nada.
O carpinteiro está martelando um prego sobre uma mesa larga
                e estreita.
Alguém prega uma lista de nomes no poste de telégrafo.
Um pedaço de jornal vibra, preso nos espinhos.
As aranhas estão debaixo das folhas de videira.
Uma mulher sai de uma casa para entrar em outra.
A parede amarela e úmida; se descama
Na janela do homem morto, uma gaiola com um canário.

* Traduções de Pedro Fernandes a partir da publicação espanhola "Colección Antológica de Poesía Social"

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Um poema de "Omeros", de Derek Walcott



Capítulo I

I
“Foi assim que, num amanhecer, nós talhamos aquelas canoas.”
Philoctete sorri para os turistas, que com suas máquinas fotográficas
tentam tirar sua alma. “Logo que o vento traz a notícia

para os laurier-cannelles, suas folhas se põem a tremer
no instante em que o machado da luz do sol fere os cedros,
porque podiam ver os machados em seus próprios olhos.

O vento levanta as samambaias. Soam como o mar que alimenta a nós
pescadores durante a vida inteira; e as samambaias se curvaram: Sim,
as árvores têm que morrer! Assim, punhos premidos nos paletós —
porque estava frio nas alturas — e a respiração fazendo plumas
como a névoa, passamos o rum. Quando voltou, a bebida deu
ânimo para a gente se tornar assassinos.

Eu ergo o machado e rezo por força nas mãos,
para ferir o primeiro cedro. O orvalho me enchia os olhos,
mas atiro mais um rum branco. Então avançamos.”

Por algum dinheiro extra, sob uma amendoeira marinha,
ele lhes mostra uma cicatriz feita por uma âncora enferrujada,
enrolando uma perna das calças com o lamento ascendente
de uma concha. Ela ficou enrugada como a corola
de um ouriço-cacheiro. Não explica a sua cura.
“Tem coisas”, sorri, “que valem mais do que um dólar.”

Desde que os altos loureiros tombaram, ele deixou que uma loquaz
catarata derramasse o seu segredo do cimo do La Sorcière, deixou
que o grito de acasalamento da pomba-do-mato

passasse a sua nota aos tácitos montes azuis,
cujos regatos tagarelas, ao levá-la para o mar,
se tornam charcos preguiçosos, onde os claros peixinhos disparam

e uma garça-real espreita os juncos com um grito rouco,
enquanto fura e perfura a lama com um pé a se erguer.
Depois o silêncio é serrado ao meio por uma libélula,

e enguias assinam seus nomes pela areia clara do fundo,
quando a aurora ilumina a memória do rio
e ondas de samambaias enormes se agitam ao som do mar.

Embora a fumaça esqueça a terra de onde ela ascende
e urtigas guardem os buracos em que os loureiros morreram,
um iguano ouve os machados, toldando cada lente

sobre seu nome perdido, quando a ilha corcovada se chamava
“Iounalao” — “Onde o iguano se encontra”.
Mas, sem pressa, o iguano irá escalar

o cordame das lianas num ano, sua barbela em leque,
seus cotovelos nos quadris, sua cauda vagarosa
a mover-se com a ilha. As vagens fendidas de seus olhos

amadureceram numa pausa que durou séculos,
que se ergueu com a fumaça dos arauaques até que uma nova raça
desconhecida do lagarto se pôs a medir as árvores.

Estas eram os seus pilares que tombaram, deixando um espaço azul
para um Deus único onde antes os velhos deuses se postaram.
Foi o primeiro deus uma gomeira. O gerador

começou com um ganido; e um tubarão, de mandíbula enviesada,
mandou lascas que voavam quais cavalas sobre as águas
para dentro de ervas trêmulas. Agora desligam a serra,

ainda quente e trepidante, para examinarem a ferida que
fizera. Rasparam o seu musgo gangrenoso, depois arrancaram
a ferida da rede de lianas que ainda a prendia

a esta terra, e fizeram sinal com a cabeça. O gerador chicoteou de volta ao trabalho, e as lascas voaram mais depressa ainda, enquanto
os dentes do tubarão roíam por igual. Eles cobriam os olhos

ante o ninho estilhaçante. Agora, sobre as pastagens
com bananeiras, a ilha levantava seus chifres. A aurora escoou por seus vales, o sangue se espalhou sobre os cedros,

e o bosque inundou-se com a luz do sacrifício.
Uma gomeira estalava. Suas folhas uma enorme
lona que perdera o suporte central. O som rangente

fez que os pescadores saltassem para trás, enquanto o mastro oblíquo
se inclinava devagar sobre os leitos das samambaias; depois o chão
tremeu em ondas sob os pés; depois as ondas passaram.

II

Achille ergueu os olhos para o buraco que o loureiro havia deixado.
Viu o buraco sarando silencioso com a espuma de uma nuvem
qual vaga a se quebrar. Depois viu o andorinhão

cruzando a rebentação de nuvens, uma coisa de nada, longe do lar, confundido pelas ondas de colinas azuladas. Um espinheiro agarrou
seu calcanhar. Livrou-o com um puxão. À volta dele, outros barcos

tomavam forma com a serra. Com seu facão ele fez
um rápido sinal da cruz, o polegar tocando os lábios,
enquanto a altura ressoava com machados. Ergueu de novo a lâmina,

 e amputou os membros do deus morto, nó por nó
arrancando as veias separadas do corpo enquanto rezava:
“Árvore! Você poderá ser uma canoa! Ou então não!”.

Os anciãos barbados suportavam a dizimação
de sua tribo sem proferirem uma sílaba sequer
daquela língua que haviam falado como uma nação,

a língua ensinada aos rebentos: do altaneiro rumorejo d
o cedro até as verdes vogais do bois-campêche.
O bois-flot se calou com o laurier-cannelle,

o pau-campeche pele-vermelha suportou na carne os espinhos,
enquanto o patois dos arauaques estalava no cheiro
de uma fogueira resinosa, que tornava as folhas pardas,

com suas línguas se enrolando, depois as mudava em cinza, e sua fala se perdia.
Como bárbaros galgando colunas que haviam derribado,
os pescadores gritavam. Os deuses finalmente estavam caídos.

Como pigmeus, cortavam as trombas de gigantes enrugados
por pagaias e remos. Trabalhavam com a mesma concentração
que um exército de formigas lava-pés.

Mas revoltadas com a fumaça, por malsinar sua floresta,
dardejantes rajadas de mosquitos agulhavam o tronco de Achille.
Ele esfregou rum branco nos dois antebraços para que, ao menos,

os que esmagasse em asteriscos morressem bêbados.
Os pernilongos buscaram seus olhos. Rodeavam-nos com ataques
que o faziam chorar às cegas. Depois a hoste se retirou

para elevado bambuzal, como arqueiros arauaques
fugindo dos mosquetes das toras que se rachavam, dispersa
pela bandeira do fogo e o machado sem remorso

que amputava os galhos. Primeiro os homens ataram as grandes toras
com cânhamo novo, e, como formigas, as rolaram para um penhasco
para um mergulho entre as altas urtigas. As toras congregavam aquela sede

pelo mar que era inata em seus corpos enredados nas lianas.
Agora os troncos no anseio de se tornarem canoas
sulcavam rebentações de arbustos, fazendo das rochas

feridas abertas, não sentindo a morte dentro deles, mas o uso...
seriam quilhas, o teto do mar. Então, na praia, colocaram-se
carvões em seus ocos desbastados por enxó.

Um caminhão de carroceria aberta carregou seus corpos atados por cordas.
Os carvões, fumegando, carcomeram por dias os lenhos cavados,
até que o calor os alargou para serem amuradas com balizas.

Sob as batidas do cinzel Achille sentiu que seus ocos
anelavam tocar o mar, arremetendo rumo à bruma de
ilhotas estampadas-por-pássaros, os bicos de suas proas separadas.

E então tudo pronto. As pirogas se encolhiam na areia
como cães com gravetos nos dentes. O padre
com um sininho as salpicou, depois fez o sinal do andorinhão.

Quando ele sorriu ao ver a canoa de Achille. Em Deus Confilamos,
disse Achille: “Deixe! É minha grafia e a de Deus”.
Numa aurora após a missa as canoas entraram nos leitos

dos baixios paramentados, e suas proas cabeceantes
concordaram com as ondas em esquecer suas vidas como árvores;
uma serviria Heitor, e uma outra, Aquiles.

III

Achille espiou a escuridão, e trancou com o ferrolho a meia-porta.
O ar marinho a enferrujara. Içou a armadilha de pesca
com o caranguejo de uma das mãos; no buraco sob a cabana

escondeu o degrau, um bloco de lava endurecida. Ao se aproximar do depósito,
salgava-o a brisa da aurora subindo a rua cinza
por casas ferradas no sono, sob as colunas de sódio

das lâmpadas dos postes, até o asfalto seco que seus pés raspavam;
ele ia contando as pequenas centelhas azuis de estrelas apartadas.
As frondes das bananeiras se curvavam acompanhando a cólera

ondulante dos galos, seus gritos arranhando como giz vermelho
que desenha colinas numa lousa. Como seu professor, à espera,
a rebentação se impacientava com seu passo vagaroso.

Pela hora em que se encontraram junto à parede do galpão de concreto,
 a estrela-d’alva já se retirara, detestando o odor
de redes e tripas de peixe; a luz no alto era dura

e havia um horizonte. Ele colocou a rede junto à porta
do depósito, depois lavou as mãos na pia.
A rebentação não ergueu a sua voz; mesmo os cães só costelas

estavam quietos em volta das canoas; uma garrafa de absinto
circulou entre os pescadores, que faziam sons de estalidos
e estremeciam com a casca amarga de que fora fermentado.

Era nessa luz que mais feliz Achille se sentia.
Quando, antes de suas mãos agarrarem a amurada, eles se preparavam
para que a vastidão do mar entrasse neles, sentindo começar o seu dia.


* Tradução de Paulo Vizioli

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Quatro poemas inéditos de Orides Fontela



O AGUADEIRO

Derramar um
cântaro

um canto
deixar fluir
o novíssimo
encanto.


CORES

Equilibrar-se em
vermelho.

Evitar o rosa.

Despetalar o amarelo.

Transcender-se em
violeta.

Colher algum azul
se possível.


TEOLOGIA II

Deus existir
ou não: o mesmo
escândalo.


LÁPIDE

Resta uma
sombra
soçobro

a memória sem
porque

resta um
ovo
oco
talvez lenda

pobre nome
vazio.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Cinco poemas de Sebastião Uchoa Leite



TOMBEAU 1958

Uma ceia se prepara
para o meu sustento.
A minha vida é rara
ou parco invento.

Mesa tão vasta
a tão pouco apetite
de alma que se basta
em seu desquite.

Já um vinho abstrato
bebo em pensamento,
e, nesse ato,
permaneço sedento.

Tal a virtude
das lápides breves:
eis a plenitude
à qual te circunscreves.

1958


ELOGIO DA PROSA

A prosa é uma bala. Cabala
controversa, cabala inversa.
A prosa é uma razão rasa,
sem melopeia ou centopeia.

A prosa é rara e clara, e fica,
transpondo o que a clarifica.
A prosa é uma rota ativa:
linha reta e não rotativa.

A prosa não é rosa nem glosa,
e, sem ser hasta, não é casta.
Dura, perdura, e sem ser pura,
A prosa é uma coisa ciosa.

A prosa não condiz, mas diz,
sem dicções nem condições.
Não tem emblemas, nem problemas:
A prosa é uma causa cabal.

1963


BIOGRAFIA DE UMA IDEIA

ao fascínio do poeta pela palavra
só iguala o da víbora pela sua presa
as ideias são / não são o forte dos poetas
ideias-dentes que mordem e se remordem:
os poemas são o remorso dos códigos e / ou
a poesia é o perfeito vazio absoluto
os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou
erupções sem larva e ejaculações sem esperma
ou canhões que detonam em silêncio:
as palavras são denotações do nada ou
serpentes que mordem a sua própria cauda


PEQUENA ESTÉTICA

eles dizem
que se deve defender a vida
é a mensagem deles
mas a morte
é tão metafórica
e sexy
é tesão certa


UM HOMEM MAGRO

Sentado à beira da cama
Quase na beirada
Com os pés soltos em alpargatas de pobre
Bem ereto
Em seu centenário
Espigado
Duro
Ele respira
O que se chamava de dignidade
E hoje
Alguns mofam disso
Uma camisa de brim popular
De listras diversas
Em vermelho marrom e amarelo
Muito magro quase um esqueleto
Mas firme
A cama dura está coberta
Com um incrível cobertor
De retalhos coloridos
E em cima dela
Sobre o cobertor
Que é um quilt artesanal
(Mas ele nem sabe disso)
Uma grossa bengala
Ignora que está elegantíssimo
Vestido no seu brim
Num ambiente pobre
E rude
Emana severidade
E verdade

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Dois poemas de Oscar Wilde



A TUMBA DE SHELLEY

Como tochas consumidas junto ao leito de um enfermo,
os delgados ciprestes rodeiam a laje calcinada:
ali fez seu trono a pequena coruja
e mostra o lagarto sua cabeça adornada.
E onde os cálices das papoulas de lilás se inflamam,
certamente no silencioso lugar da pirâmide
esconde-se alguma esfinge da Antiguidade,
guardiã atenta deste lugar que aos mortos dá paz.

Ah! Doce é verdadeiramente descansar no seio
da Terra, mãe suprema do sonho eterno;
e quanto mais doce é para ti uma tumba
na caverna azul onde o eco ressoa
ou ali onde os grandes navios batem na escuridão
contra as rochas de um penhasco onde batem as bravas ondas.


SANTA DECCA

Os deuses estão mortos. Já não ofereceremos
coroas de oliveira a Atena de olhos glaucos!
O filho de Deméter não recebe o pagamento de nossas
insolências, e os pastores cantam ao meio-dia sem medo
porque Pã está morto, e não existem amores ocultos
pelas clareiras do bosque nem nas tocas escusas:
O jovem Hilas já não busca nas fontes,
o Grande Pã está morto, e o filho Maria é Rei
mas, talvez nesta ilha em êxtase
mantida sob mar, algum deus
mastigando o amargo fruto da recordação,
permaneça oculto entre os asfódelos.
Oh Amor, se assim fosse trabalharíamos prudentemente
fugindo de sua ira: negá-lo, mas olhar,
as ondas se agitam: permaneçamos um instante observando.

* Tradução de Pedro Fernandes

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Três poemas de John Berryman



O vidrinho do Henry velou         o dia, 
o insaciável Henry amuou. 
Percebo-o,— tentou ver se a coisa passava. 
Foi o pensar que pensavam 
que poderiam fazê-lo que assanhou & assustou o Henry. 
Pois saísse então da toca e falasse. 

O mundo todo como um amante felpudo 
chegou a parecer estar ao lado do Henry. 
Chegou porém uma partida. 
Depois nada foi como deveria ou poderia ter sido. 
Não percebo como foi o Henry, às claras 
e à vista do mundo todo, sobreviver. 

O que hoje tem a dizer é um grande 
espanto que o mundo possa tolerar & ser. 
Um dia num sicómoro satisfeito,
lá no topo de tudo, cantava. 
Investe sobre a terra duro o rijo mar 
e despido se acha cada leito.


GRANDES PISTÕES, CORNETAS: O AVANÇO

A miúda está fora! não há noite aqui, nem bar 
ali, doces vias rápidas nem vê-las, nem prédios 
para fins comerciais, 
nada de vadios ou pedintes. Os Henry estão a dar 
prò confusos. Vazou tudo prò Maine, 
o biscateiro apanhou um trem?

Chega a hora em que os cafres perdem gás, 
mas e ele veio? Bora a um pé de dança, miúda, 
um lento, outro a arrastar, 
se é disso que precisas. Toca a despir, gimbras 
de arromba, dá-nos tampa, docinho; aguenta-te 
uma noite casta. 

—Sir Bones, ou Galahad: assombroso 
tu numa fixe & tu numa boa. Tá tudo? 
Doce o ocaso se esparrama. 
—Dureza. Reificado ou coisificado, bute & ala. 
Os fuinhas a chegar, urra, viva! 
Eu vota no meu orifício.


UM ESTIMULANTE PARA UM BICHO VELHO

Acácia, mirra queimada, veludo, espetos. 
—Não sou tão nova também não tão velha, 
disse a querida baralhada aos 23. 
Uma sensação final de estar-se ao relento, por beijar. 
(—O meu psiquiatra lambe o teu psiquiatra.) As mulheres 
      põem-se debaixo de coisas. 

Cedo ou tarde estes velhos criminosos 
fartam-se. Andei a ler diários antigos. 
Gottwald & companhia, saíram de cena. 
Peitos rijos desistem. Joe, o agente duplo. 
Ela sustém o ar como uma foca 
e é mais branca & mais suave. 

Rilke era um idiota
Admito-lhe as dores & a música 
& as senhoras de tal despeitadas de todo. 
Um limiar pior do que os círculos 
onde o torpe se instala & se encapota, 
os de Rilke. Como eu disse,—

* Tradução de Daniel Jonas

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Quatro poemas de António Barahona



AUTO-RETRATO

Apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos.


SE NÃO FOSSE O SANTÍSSIMO PROFETA

Se não fosse o Santíssimo Profeta
Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele)
revelar o divino Livro, eu não seguia
plo caminho direito da prosódia.

Se não fosse o Santíssimo Profeta
Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele)
que iluminou a minha alma, eu não veria
o espírito nocturno à luz do dia.

Se não fosse o Santíssimo Profeta
Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele)
– Rassul* de tanta perfeitíssima dicção –
eu não aspiraria às índoles do som.


VIDA E POESIA

Quando o poeta é praticante
não diz: isto é a minha vida
e isto a minha poesia;
mas, sim, afirma
isto sou eu:
vida e poesia sem dicotomia


EPÍLOGO

Acendo um círio terminado o ciclo
da rosa rotativa ao rés do rosto:
ilumino a expressão do que, profundo,
intento, à luz rufa do crepúsculo:
apenas o diário dum recluso
em liberdade na prisão do mundo.



Do árabe, “Mensageiro”
** Poemas enviados por Pedro Belo Clara.