segunda-feira, 27 de junho de 2016

Quatro poemas de Yves Bonnefoy



ARTE POÉTICA

O olhar foi arrastado para fora desta noite.
Imobilizadas e secas as mãos.
A febre reconciliada. Dissemos ao coração
para ser coração. Havia nestas veias um demônio
que fugiu aos gritos.
Havia na boca uma voz triste e sangrenta
que foi lavada e chamada.

* tradução de Luís Costa 


O POÇO

Escutas a corrente a bater na parede
Quando o balde desce no poço que é a outra estrela.
Vésper às vezes, solitária estrela,
Fogo sem raio as vezes a esperar à alva
Que saiam o pastor e suas reses.

Mas sempre a água está presa, no fundo do poço.
A estrela fica sempre ali selada.
É possível ver sombras, sob os galhos.
São viajantes que de noite passam

Curvados, carregando às costas massa negra,
Hesitantes, diria, numa encruzilhada.
Uns parecem que esperam, outros se apagam
No faiscar que vai sem luz.

A viagem do homem, da mulher é longa, mais longa do que a vida,
É uma estrada no fim do caminho, um céu
Que se pensou ter visto brilhar entre as árvores.
Quando o balde toca a água, que o levanta,
É uma alegria, então a corrente o esmaga.


A NEVE

Ela chegou de bem mais longe que as estradas,
Ela tocou o campo, o ocre das flores,
Com essa mão que escreve com fumaça.
Ela ao tempo venceu pelo silêncio.

A luz é mais intensa nesta tarde
Devido à neve.
Parece até que as folhas ardem, frente à porta,
E a lenha recolhida está com água.


UMA PEDRA

Tenho sempre fome desse
Lugar que nos foi espelho,
Das frutas curvadas dentro
De sua água, luz que salva,

E gravarei sobre a pedra
Lembrança de que brilhou
Um círculo, fogo ermo.
Acima é rápido o céu

Como ao voto a pedra é fechada.
Que buscávamos? Talvez
Nada, a paixão só é sonho.
Nada pedem suas mãos.

E de quem amou uma imagem,
Por mais que o olhar deseje,
Fica a voz sempre partida,
É a palavra toda cinzas.

* Tradução Mário Laranjeira


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Três poemas de Tomaž Šalamun


DEUS

Eu
exijo
amor
incondicional
e
liberdade
absoluta.
Por
isso
sou
terrível


EPITÁFIO

Quando chamei por Deus
comecei a desintegrar-me.
Aqui os respingos de sangue da ferida.
Aqui está cortado de tal maneira
que vejo através de TUDO.
O narciso é o mais puro
porque vai queimando todo de uma vez.
Meu nome escrito é um combate com as trevas.


CANSEI-ME

Cansei-me da imagem de minha tribo
e emigrei.
Com grandes pregos
pago os membros do novo corpo.
De trapos velhos serão as entranhas.
A pútrida camada da carniça
será a camada de minha solidão.
Extraio o olho do profundo do pântano.
Com os ferros carcomidos do nojo
levantarei minha barraca.
Meu mundo será um mundo de bordas afiadas
cruel e eterno

* Traduções de Pedro Fernandes



sábado, 18 de junho de 2016

Cinco poemas de Mikhail Liérmontov



"ADEUS, Ó RÚSSIA MAL LAVADA..."

Adeus, ó Rússia mal lavada,
terra de escravo e grão-senhor,
adeus, ubíquo azul de farda
e gente afeita ao seu feitor.

Talvez o Cáucaso, alto muro,
me oculte enfim de teus paxás,
cujo olhar vê tudo no escuro
e cujo ouvido ouve até mais.


UMA VELA

Uma vela, no azul da bruma
do mar, branqueja solitária.
Que busca ao longe? Aonde ruma?
Do que, zarpando, se separa?

Brincam as ondas e murmura
o vento; o mastro verga e chia.
Persegue o quê? Não é ventura.
Foge do quê? Não da alegria.

Torrente mais que anil a enleia,
enquanto o sol de ouro a acalenta.
Rebelde, porém, ela anseia
somente a paz que há na tormenta.


"BYRON NÃO SOU..."

Byron não sou, mas outro eleito
desconhecido ainda e, embora
também eu vague mundo afora
proscrito, sou russo em meu peito.

Parti mais cedo e vou chegar
mais cedo ao fim, quase sem obra;
minha alma encobre feito um mar
cada esperança que soçobra.

Quem pode, mar sombrio e mudo,
saber de teu segredo – e, além
do mais, contar aos outros tudo
o que remoo? Eu? Deus? Ninguém!


A TAÇA DA VIDA

Bebemos vendados da taça
da vida enquanto
lavamos seu ouro sem jaça
com nosso pranto.

A venda desfaz-se, porém,
antes da morte,
e o que nos seduzia tem
a mesma sorte,

Vazia, a taça então revela
seu nada insosso:
bebíamos sonho que, nela,
nem era nosso!


UM SONHO

Num vale daguestano eu expirava,
chumbo no peito, inerte, ao meio-dia;
a chaga funda ainda fumegava,
meu sangue gota a gota se esvaía.

Jazia sobre a areia, abandonado,
penhascos me rodeavam, e um sol forte
queimava cada cimo alto e dourado,
bem como a mim, num sono já de morte.

Sonhava que na terra onde nascera
caía a noite e havia num festim,
com flores no cabelo e de maneira
jovial, moças falando sobre mim.

Mas, longe da alegria e da conversa,
sentava-se uma delas de ar tristonho
e a sua jovem alma estava imersa
na mágoa só Deus sabe de que sonho.

Num vale daguestano, ela sonhava
que, inerte, um corpo familiar jazia,
sua chaga enegrecera e ele sangrava
numa torrente cada vez mais fria.

* Traduções de Boris Schnaiderman publicadas na Folha de São Paulo.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Dois poemas Lawrence Ferlinghetti



AUTOBIOGRAFIA 

A vida que levo é muito sossegada 
Passo os dias no café do Mike 
admirando os campeões 
de bilhar do grupo Dante 
e os viciados de matraquilhos 
A vida que levo é muito sossegada 
na zona leste de Broadway 
Sou americano 
fui um rapaz americano 
Lia o Magazine dos Rapazes Americanos 
e tornei-me escuteiro 
nos subúrbios 
Julgava-me o Tom Sawver 
pescando caranguejos no rio Bronx 
pensando no Mississipi 
Tive uma luva de baseball 
e uma bicicleta American Flyer 
Distribuí o Woman’s Home Companion 
às cinco da tarde 
ou o Herald Tribune 
às cinco da manhã 
Ainda ouço o jornal cair 
em terraços esquecidos 
Tive uma infância infeliz 
Vi Lindberg aterrar 
Olhei para a minha terra 
mas não vi anjo nenhum 
Fui apanhado a roubar lápis 
num bazar barato 
no mesmo mês fui promovido 
a Escuteiro Chefe 
Derrubei árvores para o Grêmio da Agricultura 
e sentei-me nelas 
Desembarquei em Normandia 
num barco a remos que virou 
Vi exércitos educados 
na praia de Dover 
Vi pilotos egípcios em nuvens purpúreas 
negociantes enrolando seus toldes 
ao meio dia 
salada de batatas e dente de leão 
em piqueniques anarquistas 
Estou a ler «Lorna Doone» 
e uma biografia de John Most 
o terror dos industrialistas 
sempre com uma bomba na gaveta 
da escrivaninha 
Vi os lixeiros desfilarem 
no dia comemorativo de Colombo 
atrás das fanfarras ruidosas 
Há tempos que não vou visitar os Claustros 
ou as Tuileries 
mas continuo a pensar lá ir 
Vi os lixeiros 
desfilarem debaixo da neve 
Comi cachorros quentes nas feiras 
Ouvi o Discurso de Gettysburg 
e o Discurso do Ginsberg 
Gosto disto por aqui 
e não voltarei para onde vim 
Também eu viajei em vagões de carga 
vagões de carga vagões de carga 
Viajei no meio de desconhecidos 
Estive em Ásia 
Estive com Noé na Arca 
estava na Índia 
quando Roma foi construída 
Estive na Manjedoura com o burro 
Vi o distribuidor eterno 
Ouvi um trombone pregar 
Ouvi Debussy 
filtrado por um lençol 
Dormi numa centena de Ilhas 
onde os livros eram árvores 
Ouvi os pássaros 
chilreando como sinos 
Usei calças de flanela cinzenta 
e caminhei pela praia do inferno 
Vivi numa centena de cidades 
onde as árvores eram livros 
Que metros que táxis que cafés 
Que mulheres de seios cegos 
membros perdidos entre arranha-céus 
Vi as estátuas dos heróis 
nas encruzilhadas 
Danton chorando na entrada do metro 
Colombo em Barcelona 
apontando p’ro oeste nas Ramblas 
rumo ao American Express 
Lincoln no seu trono de rocha 
e um enorme Rosto de Pedra 
no Dacota do Norte 
Bem sei que o Colombo 
não inventou a América 
Ouvi uma centena de Ezra Pounds domesticados 
Deviam soltá-los todos 
Já passou muito tempo desde que fui pastor 
A vida que levo é muito sossegada 
Passo os dias no café do Mike 
lendo os anúncios classificados 
Li duma ponta a outra 
as Seleções do Reader’s Digest 
e notei a perfeita identificação 
entre os Estados Unidos e a Terra Prometida 
Já que em todas as moedas está marcado 
da Montanha Branca 
ao sul de São Francisco 
Vi a Mulher que Ri no Luna Parque 
ao pé da Barraca das Gargalhadas 
sob uma tempestade de chuva 
sempre a rir-se 
Ouvi os ruídos da noite 
das grandes pândegas 
Tenho vagueado tão só 
como as multidões solitárias 
A vida que levo é muito sossegada 
Passo os dias à porta do café do Mike 
a ver o mundo passar 
em curiosos sapatos 
comecei uma vez 
uma volta ao mundo a pé 
mas desisti em Brooklyn 
Essa ponte era demais para mim 
Já tentei o silêncio 
o exílio e a astúcia 
Voei demasiado perto do sol 
e as minhas asas de cera derreteram-se 
Ando à procura do meu Velho 
que nunca conheci 
Ando à procura do Líder Perdido 
com quem voei 
Os jovens deviam ser exploradores 
O lar é o ponto da partida 
Mas minha mãe nunca me disse 
que podia haver cenas destas 
Útero-cansado 
descanso 
Tento viajado 
Visitei a cidade dos fantasmas 
Conheço as massas amaçadas 
Ouvi chorar o Kid Ory 
«Confiamos em Deus» 
mas nas notas de dólar não há nada inscrito 
porque elas próprias já são Deus 
Leio diariamente os anúncios «precisa-se» 
a procura duma pedra duma folha 
duma porta esquecida 
Ouço a América cantar 
nas Páginas Amarelas 
Quem diria que a alma passa crises 
Leio todos os dias os jornais 
e noto a ausência da humanidade 
nessa triste pletora da imprensa 
Vejo que esvaziaram o Lago de Walden 
para pôr lá um parque de diversões 
Vejo que estão a obrigar o Melville 
a comer sua própria, baleia 
Vejo que vem aí uma nova guerra 
mas não serei eu quem vai lutar nela 
Li os grafitis do destino 
nas paredes dos urinóis 
Fui eu quem ajudou o Kilroy a escrevê-los 
Marchei pela Quinta Avenida acima 
tocando clarim num severo pelotão 
mas voltei rápido para o Casbah 
à procura de meu cão 
Noto alguma semelhança entre os cães e eu 
Os cães são os verdadeiros observadores 
correndo os quatro cantos do mundo 
na terra de Molloy 
Passeei-me por vielas 
estreitas demais para Chryslers 
Vi uma centena de carroças de leite sem cavalo 
num terreno baldio nas Astúrias 
Ben Shahn nunca as pintou 
mas elas lá estão retorcidas nas Astúrias 
Tenho ouvido o grito do sucateiro 
percorri super-auto-estradas 
e acreditei na promessa dos cartazes 
Atravessei as planícies de Jersey 
vi as suas cidades 
e rebolei-me nas terras ermas de Westchester 
com bandos errantes de nativos 
em vagões de carga 
Tenho-os visto 
Sou o homem 
Estive lá 
Sofri um pouco 
Sou americano 
Tenho passaporte 
Mas não sofri em público 
E sou jovem demais para morrer 
Sou um selfmademan 
Tenho planos para o futuro 
Estou na fila para um bom emprego 
Talvez me mude para Detroit 
Por enquanto vendo gravatas 
Sou um Zé Ninguém 
Sou um livro aberto para o meu patrão 
Sou um mistério impenetrável 
para os meus amigos íntimos
 A vida que levo é muito sossegada 
Passo os dias no café do Mike 
contemplando o umbigo 
Sou uma parte da longa loucura do corpo 
Tenho vagueado por bosques noturnos 
Tenho-me apoiado em portais bêbados. 
Tenho escrito histórias frenéticas 
sem pontuação 
Sou o homem 
Estive lá 
Sofri um pouco 
Sentei-me em cadeiras de cansaço 
Sou uma lágrima do sol 
Sou a colina onde os poeta sobem
Inventei o alfabeto 
depois de observar o voo das garças 
que faziam letras com as pernas 
Sou um lago na planície 
Uma palavra numa árvore 
Sou uma colina de poesia 
Sou uma razia no inarticulado 
sonhei que os dentes todos me caíam 
mas a minha língua sobrevivia 
para dizer como foi 
Pois sou um silêncio poético 
Sou um banco de canções 
Sou um piano mecânico 
num casino abandonado 
numa esplanada à beira-mar 
num nevoeiro espesso 
mas sempre a tocar 
Vejo uma semelhança 
entre a Mulher que Ri e eu 
Ouvi o som do verão na chuva 
Vi mulheres em tapetes de tábua 
com estranhas sensações 
compreendo suas hesitações 
Sou um coletor de fruta 
Vi como os beijos causam euforia 
Corri o risco de ficar encantado 
Vi a Virgem 
numa macieira em Chartres 
e Santa Joana ardendo em Bella Union 
Vi girafas em selva-ginásios 
seus pescoços como o amor 
entrelaçados nas circunstâncias de ferro 
deste mundo 
Vi Vênus Afrodite 
em seu corredor ventoso 
Ouvi uma sereia cantar 
na Quinta Avenida 
Vi a deusa branca bailando 
na Rue des Beau’ Arts 
no dia I4 de Julho 
e a Bela Dama sem Mercê 
com o dedo no nariz em Chumbley’s 
Ela não falava inglês 
Tinha cabelos amarelos e voz rouca 
e nenhum pássaro cantava 
A vida que levo é muito sossegada 
passo os dias no café do Mike 
observando os jogadores de bilhar de bolsa 
nesse cenário ministroni 
devorando macarroni 
e li algures 
o Significado da Existência 
mas esqueci exatamente onde 
Sou o homem 
E estarei lá 
E talvez faça despertar os lábios 
da gente adormecida 
E talvez transforme em folhas de relva 
meus cadernos de apontamentos 
E talvez escreva meu anônimo epitáfio 
pedindo aos cavaleiros 
que não se detenham



CONFISSÃO À SÉRIO

Fui concebido no verão I9I8 
(ou era 38) 
durante uma guerra qualquer 
o que não impediu duas pessoas 
de fazer amor em Ossining esse ano 
gosto de imaginar isso ao sol nas margens dum rio 
durante um piquenique ao pé do Hudson 
como num quadro da escola de Hudson 
ou então no Bear Mountain talvez 
depois de ter apanhado o antigo paddlewheel a vapor 
(talvez tenha acrescentado o paddlewheel — 
O Hudson é o meu Mississipi). 
E de regresso ela 
trazia-me já 
dentro dela eu 
Lawrence Ferlinghetti 
arrancado da obscuridade de minha mãe há muito tempo 
nascido num pequeno quarto — 
No quarto do lado meu irmão ouviu 
o primeiro grito muitos anos depois escreveu-me – "coitadinha da mãe – sem marido – 
sem dinheiro – pai morto Como agUentou ela tudo isso —" 
Alguém me espremeu o coração 
para a por a andar 
Gritei e saltei 
Olho aberto Coração aberto a mais 
onde vagueio 
Gritei e saltei 
no coração do mundo 
Levado 
por um outro que desconhecia 
E qual eu conhecerá meu irmão? 
"Sou filho de mim mesmo sou minha mãe, meu pai, 
Nascido de mim próprio 
minha própria carne mamada" 
E alguém me espremeu o coração 
para me por a andar 
E pus-me a fazer 
o meu número 
Era um brinquedo de dar corda 
que alguém deixou cair 
num mundo já gasto 
O mundo girava já 
há muito tempo mas não fazia diferença 
estava novo estava como novo 
tornei-o novo 
e vi-o brilhar 
e brilhava ao sol 
e girava ao sol 
e o eixo que fiava 
era de pura luz 
Minha vida estava feita 
de eixos de luz 
As teias d’aranha da Noite 
não estavam nela 
não faziam parte dela 
Era demasiado brilhante 
de ver 
demasiado luminoso 
para fazer uma sombra 
e havia um outro mundo 
por detrás das cortinas brilhantes 
bastava fechar os olhos 
para que outro mundo surgisse 
tão perto e tão querido 
que só podia ser eu mesmo 
meu eu interior 
onde tudo o que é real 
havia de acontecer 
neste lugar que existe ainda 
em mim 
e que não mudou muito 
certamente menos 
que o exterior 
com seu saco de pele 
e sua "barba d’alumínio" 
e seus olhos azuis azuis 
que veem como um só olho 
no meio da testa 
onde tudo acontece 
salvo o que acontece 
no coração 
vajra lótus coração de diamante 
no qual leio 
o poema que não tem fim


* Traduções de André Shan Lima e Isabelle Lima.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Quatro poemas de Stefan George



INICIAÇÃO

São as horas paradas
Cada uma do ano atalho
Em hera entrelaçadas
Cobertas de esplêndido orvalho.

É a fala infantil
Que sua voz na flauta ensaia
A réplica sutil
Coro de mata e vento e praia.

É a primeira pena
Pois o sonho em palavras mente
E a longe altiva rena
Confinada tomba demente.

É o inicial mosto
E saudade é só submissão
O Maldito indisposto
Que inspira comiseração.

É ainda a Camena
Que hesita pálida e se insurge
Com os seus sons acena
E assusta-se com o que surge...

Tal qual uva azedia
Que lenta perfuma e colora
Da folhagem sombria
Se alça a cotovia na aurora.


SENHOR DA ILHA

Pescadores contam que ao sul
Numa ilha rica em canela e azeite
E preciosas pedras cintilantes na areia
Havia uma ave que ao sol podia
Desfolhar as copas de árvores gigantes
Quando alçava as asas
Com as cores dos humores dos caracóis de Tyrer
Mergulhava em impressionante voo
Assemelhando-se a uma escura nuvem.
De dia embrenhava-se na mata
Ressurgia na praia ao anoitecer
Na brisa fria recendendo sal e alga
Seu canto suave seduzia golfinhos
E os conduzia para o mar que luzia
Coberto de penas douradas.
Assim viveu desde os primórdios
Apenas náufragos a viram.
Quanto no horizonte surgiram
As velas da primeira armada
Alçou-se aos céus numa revoada
A todo o éden deu adeus aflita
E debatendo as imensas asas
Sucumbiu com o chiado abafado da dor infinita.

*

A palavra ilude e some
Só a canção a alma anima
Se ainda não sinto a rima
Que essa falta não assome.

Como as crianças distantes
Deixa-me livre cantar
Nos salões não quero estar
Nesse mundo dos gigantes.

Zombes desse meu despeito!
Um dia confessarei
Que em meus sonhos te abracei
E já trago-te no peito.


CANÇÃO DO ANÃO

I
Pequenas aves piam
Pequenas flores ciam
Seus sinos ciciam.

No prado estrelado
Pasta pequeno gato
De pelo delicado.

Pequeninos se inclinam
E no giro se alucinam –
O anão já atinam?

II
De meu palácio eu chego
Para a dança infantil
Irá alguém gentil
Conceder-me aconchego?

Deixai que me antecipe
Do trono compartilho
Sou o infalível filho
Dos anões o príncipe.

* Tradução de Eduardo de Campos Valares