segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Um poema de John Ashbery



O IDIOTA

Oh, como me ignora este tosco,
indiferente mundo! Essas rochas, essas casas
não conhecem o contato de minha carne, nem há uma árvore
cuja sombra tenha me amparado qual um amigo.
Vagueei pelo mundo inteiro.
Não conheci nenhum homem, nenhuma fera aproximou-se
pacificamente e pôs seu focinho entre minhas mãos.
Nenhuma mulher acolheu meu rosto com um beijo.

Porém uma vez, durante uma travessia
de Gibraltar ao Cabo de Hornos
conheci a bordo amistosos marinheiros,
e enquanto lutávamos para salvar o barco do naufrágio
durante uma tempestade, as próprias ondas pareciam amigas,
e o rumor que fazia a espuma a golpear  a frente do barco.

* Tradução de Pedro Fernandes de O. Neto

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um poema de James Wright




IMAGENS DA PRIMAVERA

Dois atletas
dançam na catedral
do vento.

Uma mariposa para num galho
de tua voz verde.

Pequenos antílopes
dormem nas cinzas
da lua.

* Tradução de Pedro Fernandes



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Três poemas de Georg Trakl



RONDEL

Foi-se o dourado dos dias,
Cor marrom e azul da tarde:
Doces flautas vãs do pastor
Cor marrom e azul da tarde
Foi-se o dourado dos dias.

(1912)


MEU CORAÇÃO AO CREPÚSCULO

No crepúsculo ouve-se o grito dos morcegos.
Dois cavalos saltam no gramado. 
O ácer vermelho sussurra.
Ao andarilho surge no caminho a pequena taberna.
Maravilhoso o sabor de vinho novo e nozes.
Maravilhoso: cambalear bêbado na floresta crepuscular.
Pelos galhos negros ressoam sinos aflitos.
No rosto pinga orvalho.

(1912)


CANÇÃO DAS HORAS

Com olhos escuros contemplam-se os amantes,
Louros, resplandecentes. Em imóvel treva
Entrelaçam-se lânguidos os ávidos braços.  

A boca dos abençoados despedaçou-se. Os olhos redondos
Espelham o escuro ouro da tarde primaveril,
Fronteira e negror da floresta, temores vespertinos no verde;
Talvez indizível voo de pássaro, o atalho
Do não-nascido ao longo de sombrios lugarejos, de solitários verões,
E do azul em ruínas surge às vezes um corpo sem vida.

No campo rumoreja discreto o trigo amarelo.
Dura é a vida; o camponês maneja o ferro da foice,
O carpinteiro encaixa grandes vigas.

A folhagem no outono colore-se purpúrea; o espírito monástico
Percorre dias serenos; maduras as uvas
E festivo o ar em vastos pátios.
Mais doce o odor de frutos amarelados; discreto o riso
Do satisfeito, música e dança em tabernas de sombras;
No jardim crepuscular, passo e silêncio do menino morto.

(1913)

* Traduções de Cláudia Cavalcanti 



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Dois poemas de James Merrill


O POETA AFOGADO

O poeta afogado, horas antes de afogar-se,
tinha olhos de redemoinho, sal em seus pulsos, e exibia
uma líquida aparência. O mar estava inteirado
como as flores na cabeceira de uma ferida,
de uma responsabilidade iminente,
como um ímã tendendo para o lado dele durante todo o dia azul,
ambíguo como um pulmão.

Ele observava os mergulhadores estudar um elemento
familiar como as escalas para o músico,
em que nadar é uma progressão de longos vocais,
uma comunicação que nunca pode ser buscada
pois em si mesma é completa: evidente como as pérolas,
simples como as pedras ao sol, uma felicidade
ligada aos acontecimentos.

Afogar-se foi a perfeição da técnica
a palavra envolvendo seu próprio sentido, como o Tempo;
e voltando-se para si o mar penetrou nele
como se falássemos de poemas num poema,
ou no momento culminante numa sonata citássemos
exercícios de digitação: um elogio
para o sucesso completo.


CISNE NEGRO

Negro na água calma detrás dos juncos
o cisne negro traça
um caos privado gorjeia em seu sinal,
assume, como quarta dimensão, o esplendor
sobre a criança com brancas ideias de cisnes
no verde lago
onde cada paradoxo significa maravilha.

Embora o negro pescoço se erga indistinto
como uma interrogação sobre o lago,
o cisne condena todo questionamento fácil:
algo em si, ambíguo, pressentido,
como a dor ou o canto das mulheres ao despertar;
e o que o canto do cisne canta
é o profundo silêncio do cisne.

Ilusão: o cisne negro sabe irromper
na expectativa, o bico
aponta já para seu peito, para sua imagem,
e atravessa nossas vidas, se o lago é vida,
e pelo suave giro de seu pescoço
transforma, a tempo, os danos do tempo;
menor que uma pena negra, a dor do tempo.

Feiticeiro: o cisne negro aprendeu a entrar
no perdido centro secreto da dor,
onde, como nas festas de maio, diversas tragédias
se entrelaçam, barras no poste, para compartilhar
um mesmo afundar-se, medula de puro inverno
que não muda e é
brilho sempre no gelo e no ar.

Sempre se move no lago o cisne negro. Sempre
chega o momento de olhar
como, alto símbolo, vira e se move
até a outra margem, sempre. A criança loira na
ribeira, mãos cheias de complexas maravilhas, permanece
já maravilhado, já incerto.

Seus lábios alentam: amo esse cisne negro.

* Tradução de Pedro Fernandes de O. Neto