segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Dois poemas de James Merrill


O POETA AFOGADO

O poeta afogado, horas antes de afogar-se,
tinha olhos de redemoinho, sal em seus pulsos, e exibia
uma líquida aparência. O mar estava inteirado
como as flores na cabeceira de uma ferida,
de uma responsabilidade iminente,
como um ímã tendendo para o lado dele durante todo o dia azul,
ambíguo como um pulmão.

Ele observava os mergulhadores estudar um elemento
familiar como as escalas para o músico,
em que nadar é uma progressão de longos vocais,
uma comunicação que nunca pode ser buscada
pois em si mesma é completa: evidente como as pérolas,
simples como as pedras ao sol, uma felicidade
ligada aos acontecimentos.

Afogar-se foi a perfeição da técnica
a palavra envolvendo seu próprio sentido, como o Tempo;
e voltando-se para si o mar penetrou nele
como se falássemos de poemas num poema,
ou no momento culminante numa sonata citássemos
exercícios de digitação: um elogio
para o sucesso completo.


CISNE NEGRO

Negro na água calma detrás dos juncos
o cisne negro traça
um caos privado gorjeia em seu sinal,
assume, como quarta dimensão, o esplendor
sobre a criança com brancas ideias de cisnes
no verde lago
onde cada paradoxo significa maravilha.

Embora o negro pescoço se erga indistinto
como uma interrogação sobre o lago,
o cisne condena todo questionamento fácil:
algo em si, ambíguo, pressentido,
como a dor ou o canto das mulheres ao despertar;
e o que o canto do cisne canta
é o profundo silêncio do cisne.

Ilusão: o cisne negro sabe irromper
na expectativa, o bico
aponta já para seu peito, para sua imagem,
e atravessa nossas vidas, se o lago é vida,
e pelo suave giro de seu pescoço
transforma, a tempo, os danos do tempo;
menor que uma pena negra, a dor do tempo.

Feiticeiro: o cisne negro aprendeu a entrar
no perdido centro secreto da dor,
onde, como nas festas de maio, diversas tragédias
se entrelaçam, barras no poste, para compartilhar
um mesmo afundar-se, medula de puro inverno
que não muda e é
brilho sempre no gelo e no ar.

Sempre se move no lago o cisne negro. Sempre
chega o momento de olhar
como, alto símbolo, vira e se move
até a outra margem, sempre. A criança loira na
ribeira, mãos cheias de complexas maravilhas, permanece
já maravilhado, já incerto.

Seus lábios alentam: amo esse cisne negro.

* Tradução de Pedro Fernandes de O. Neto


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