segunda-feira, 4 de julho de 2016

Um poema de Anne Sexton



A CHAVE DOURADA

Quem fala neste caso
é uma bruxa de meia-idade, eu –
enredada em meus dois grandes braços,
cara num livro
e boca escancarada,
pronta pra lhes contar uma história ou duas.
Venho pra lembrar a vocês,
todos vocês: Alice, Samuel, Kurt, Eleanor,
Jane, Brian, Mariel,
todos vocês cheguem perto.
Alice,
aos cinquenta e cinco você se lembra?
Você lembra de quando liam
pra você na infância?
Samuel, aos vinte e dois você já se esqueceu?
Esqueceu dos sonhos às dez da noite
onde o rei perverso
sumia na fumaça?
Você está em coma?
Você está submerso?

Atenção, meus caros,
deixem-me apresentar o menino.
Tem dezesseis anos e quer algumas respostas.
Ele é cada um de nós.
Quero dizer você.
Quero dizer eu.
Não basta ler Hesse
e tomar caldo de galinha,
precisamos das respostas.
O menino encontrou uma chave dourada
e procura pelo que ela abrirá.
O menino!
Ao achar uma moeda,
procurava logo uma carteira.
O menino!
Ao achar uma corda
procurava logo a viola.
Portanto ele segura firme a chave.
Os mistérios dela choramingam
como uma cadela no cio.
Ele vira a chave.
Presto!
Ela abre este livro de contos estranhos
que transforma os irmãos Grimm.
Transforma?
 Como se um clipe de papel gigante
pudesse ser uma escultura.
(E poderia.)


* Tradução de Bernardo Antônio Beledeli