segunda-feira, 18 de julho de 2016

Dois poemas de Denise Levertov



OS MUDOS

Esses suspiros que os homens
soltam quando passam por uma mulher na rua
ou nas escadas do metrô
a fim de lhe dizer que é uma fêmea
pois assim sentem suas carnes,
são talvez espécie de som,
canção muito feia, feia mesmo, sussurrada
por um pássaro de língua serrada
mas feita para música?
Ou são grunhidos
de surdos-mudos encurralados numa sala que
aos poucos se enche de fumaça?
Talvez as duas coisas.
Tais homens parecem que
só sabem soltar tais sussurros,
no entanto uma mulher, apesar de si mesma,
sabe que lhes chama atenção:
se ela não tivesse graça
passariam por ela em silêncio:
logo, não é só porque ela seja
um buraco quente. É uma palavra
em língua sofrida, longe de ser
primitiva nem primária;
língua prenhe, doentia, senilizada,
em decrepitude. Ela deseja
desfazer-se do sussurro, repug-
nada, mas não consegue,
o sussurro prossegue zurrando em seus ouvidos,
muda o ritmo de seus passos,
os cartazes rasgados em corredores que ecoam,
verbalizam-no, ele
se estremece e range à chegada do trem.
O pulso dela sobriamente
acelerava-se, mas os vagões
param estridentes
enquanto sua compreensão
prossegue transladando
“Vida após vida após vida prossegue
sem poesia
sem decência
sem amor”.


* Tradução de Ary Gonzalez Galvão 


A QUEIXA DE ADÃO

Alguns,
não importa o que lhes é dado,
ainda querem a lua.
O pão, o sal,
carne branca ou vermelha,
ainda dão fome.
O leito nupcial
E o berço
ainda cruzam braços.
Recebem terras,
seu próprio chão sob os pés,
e ainda tomam estradas.
E água: escava-se poço mais fundo,
não é fundo bastante
para beber a lua.

* Tradução Ruy Vasconcelos