sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Dois poemas inéditos de Julio Cortázar encontrados entre anotações de sua biblioteca



CLANDESTINO

A canção era assobiada pelo marinheiro na proa
e do vento passou aos lábios do grumete na despensa
repetindo-se, mais aguda, até o poente onde uma passageira
a reteve entre os dedos como um vilão,
deixando-a flutuar, titubeante,
em busca de alguém que soubera alçá-la do silêncio que espreitava.

Fui eu quem veio salvá-la do lago em que se afogava
e a deixei seguir até o tripulante de boina azul
que agarrado a um mastro jogava ao urso;
através dele nasceu outra vez, grave e segura,
e já nada deteve sua ronda até à popa
onde um marinheiro de rosto adormecido a susteve um segundo.

(Ai, ai,
ai, ai,
canta e não chores)

E a deixou partir, última bolha misturando-se ao pavão furioso da estrela.

Provence, 18/10/57

* Poema encontrado na última página da edição de Mimesis, de Eric Auerbach, publicada em 1950 pelo Fundo de Cultura Econômica.


MENSAGEM A UMA RAINHA

Majestade: mãos numerosas passeiam
Ao redor de teu esplêndido palácio
Alimentando-se de palavras
E cornucópias de onde saem leis mastigáveis
E fitas amarelas
Tudo está tão velho quando nasce!
Por quem és rainha, por quem jogas
Ao soltar o macramé de um tempo pegajoso
Enquanto te pintam unha a unha as cutículas
E os mendigos, em ação de graças,
Enchem um chapéu de retalhos manchados
Que o camareiro te trará entre reverências
Sob a forma de um Te amamos, Rainha,
Que vivas muitos Anos, hurra hurra

* Poema encontrado na última página de um folheto de Claude-Edmonde Magny.

** Traduções de Pedro Fernandes.