sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Quatro poemas de Leopoldo María Panero



O SUPLÍCIO

A febre se parece com Deus
A loucura: a última oração.
Longo tempo bebi de um estranho cálice
de álcool e fezes
e vi na maré da taça os peixes
atrozmente brancos de sonho.
E ao levantar a taça, digo
a Deus, te ofereço este suplício
e esta hóstia nascida do sangue
que todos olhos mana
como ordenando-me a beber, como ordenando-me morre
para que no fim seja ninguém
seja igual a Deus.


O ANTICRISTO (SEBASTIÃO NO SONHO)

No Metrô vi um homem grandiosamente belo
que olhava os homens como quem olha um peido
na rua vi um homem escandalosamente bonito
que tinha na testa o sinal de justiça,
o Branco 5, o Branco número
que dividiu os céus.
No espelho escuro
de um bar onde acreditavam,
alguns que viviam, havia já um Desperto
que olhava a cena como se existira.


CANÇÃO PARA UMA DISCOTECA

Não temos fé
no outro lado desta vida
só espera o rock and roll
diz a caveira que há entre minhas mãos
dança, dança o rock and roll
para o rock o tempo e a vida são uma miséria
o álcool e o haxixe não dizem nada da vida
sexo, drogas e rock and roll
o sol não brilha pelo homem,
o mesmo que o sexo e as drogas;
a morte é a cona do rock and roll.
Dança até que morte te chame
e diga suavemente entra
entra no reino do rock and roll.


DEDICATÓRA

Muito além de onde
ainda se esconde a vida, há
um reino, se cultiva
como um rei sua agonia,
floresce como um reino
a suja flor da agonia:
eu que me prostituí totalmente, ainda posso
prostituir minha morte e fazer

do meu cadáver o último poema.

* Tradução de Pedro Fernandes de O. Neto