segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Três poemas de Georg Trakl



RONDEL

Foi-se o dourado dos dias,
Cor marrom e azul da tarde:
Doces flautas vãs do pastor
Cor marrom e azul da tarde
Foi-se o dourado dos dias.

(1912)


MEU CORAÇÃO AO CREPÚSCULO

No crepúsculo ouve-se o grito dos morcegos.
Dois cavalos saltam no gramado. 
O ácer vermelho sussurra.
Ao andarilho surge no caminho a pequena taberna.
Maravilhoso o sabor de vinho novo e nozes.
Maravilhoso: cambalear bêbado na floresta crepuscular.
Pelos galhos negros ressoam sinos aflitos.
No rosto pinga orvalho.

(1912)


CANÇÃO DAS HORAS

Com olhos escuros contemplam-se os amantes,
Louros, resplandecentes. Em imóvel treva
Entrelaçam-se lânguidos os ávidos braços.  

A boca dos abençoados despedaçou-se. Os olhos redondos
Espelham o escuro ouro da tarde primaveril,
Fronteira e negror da floresta, temores vespertinos no verde;
Talvez indizível voo de pássaro, o atalho
Do não-nascido ao longo de sombrios lugarejos, de solitários verões,
E do azul em ruínas surge às vezes um corpo sem vida.

No campo rumoreja discreto o trigo amarelo.
Dura é a vida; o camponês maneja o ferro da foice,
O carpinteiro encaixa grandes vigas.

A folhagem no outono colore-se purpúrea; o espírito monástico
Percorre dias serenos; maduras as uvas
E festivo o ar em vastos pátios.
Mais doce o odor de frutos amarelados; discreto o riso
Do satisfeito, música e dança em tabernas de sombras;
No jardim crepuscular, passo e silêncio do menino morto.

(1913)

* Traduções de Cláudia Cavalcanti