segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Três poemas de Andrei Biéli



CANÇÃO PARA GUITARRA

Eu
Estou nas palavras
Tão morbidamente
Mudo:
Minhas sentenças são
Máscaras.
E –
Falo
A vós todos –
– Falo
Fábulas –,
– Porque –
Assim me foi designado,
A razão –
Não a entendo –
– Porque –
Há tempos tudo se foi no escuro,
Porque – tudo é igual:
Quer eu
Saiba ou não saiba.
Porque só há tédio em toda parte,
Porque a fábula é de esmeralda,
Onde –
Tudo é outro.
Porque há esta avidez dos borrifos
Do prazer;
Porque a difícil
Existência
Para todos
– Tem um só desenlace.
Porque –
– Em suma –,
– Para que
Este inferno?
Porque –
– Para todos
Há um só fim.
E me rompe este riso
Do
Destino
De todos –
– E –
– De
Mim.

(1922)


BURLA

No
Vale
Uma vez
Em sonho

Ante
Vós
Eu, 

Velho
Tolo –,

A
Tocar
Mandolina.

Vós
Ouvíeis
Atento.

E –
– O Antigo Zodíaco.
Um dia
Surraram-me
E
Me
Expulsaram
Do
Circo

Em
Farrapos
E
Em
Sangue,
A clamar –
– Por Deus!
– Deus!
– Deus!

E
Pelo –
– Amor universal.

Vós
Por acaso
Encontrastes
O palhaço
Cantante.

Parastes
Para escutar
O canto.

Vós –
Observastes

O barrete
De bufão.

Vós –
Dissestes
Convicto:
– “Este
É o caminho
Da iniciação...”

Vós –
Em sonho
Mirastes

O –
– Zodíaco.
(1915) 

* Tradução de Augusto de Campos


A PALAVRA

Na febre de som
Do sopro
A trave é flama-fala.

Lá fugindo da laringe,
A terra exala.

Expiram
As almas
Das palavras não-compostas.

Deposita-se a crosta
Dos mundos que nos portam.

Sobre o mundo formado
Paira a profundidade
Das palavras proferíveis.

Profundamente ora
A palavra das palavras, Sarça viva.

E do futuro
Paraíso
Alça-se a serra adunca
Por onde em chamas, consumido,
Não passarei: nunca.

(1917) 

* Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Dois poemas de Tristan Corbière



AVENTURA GALANTE E A VENTURA

                              Odor della feminità.
Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz – um pouco – é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida…

Um belo dia – triste ofício! – eu, assim,
– Ofício!.. – velejava. Ela passou por mim.
– Ela quem? – A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a… – porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E… estendeu-me a mão, e…
                                                        me deu uns tostões.



DESENCORAJOSO

Foi um poeta verdadeiro: Não tinha canto.
Morto: ele amava o dia e desdenhava o pranto.
Pintor: ele não pintava, esquecido que era…
Ele via muito – e ver é uma cegueira.

– Sonhador: habitava o sonho, que se esvai,
Sem ir com ele às nuvens, de onde se cai,
Sem abrir seu personagem e buscar-se dentro.

– Puro herói de romance: ele adorava a loura
Bruma ao sol que amorena, e a lua que nos doura…
Mas não amava nunca – Ele não tinha tempo. –

– Explorador incansável: Remos a remar
Cá embaixo ele via, do alto de seu olhar,
Lasso de piedade pelas boas remadas…

Mineiro das idéias: tocava a fronte espessa,
Para coçar uma espinha ou coçar a cabeça
Em seu trabalho – Fazer nada. –

– Falava: “Sim, a Musa é estéril! é filha
De amor, ociosidade, prostituição;
Não deformem a moça em ventre de família
Que cobre o garanhão para a reprodução!

“Entornem a massa, pedreiros das idéias!
Vocês que, amados por seu capricho insensato,
–Tudo é vaidade! –, quando o dia clareia,
Mostram-na com alarde aos olhos dos beatos!

“Ele acariciava, como se afoga um gato,
E vocês prenderam sua asa ou seu véu,
Orgulhosos de empunhar a pluma do pato,
Ou pó-de-mico, para agitar o pincel!”

– Ele dizia: “Ó florinha! Ingênuo Oceano!
Não creiam que nos faltem pintores e poetas!…
O vidraceiro pinta! e tem por sucedâneo
Um cego que canta raspando a palheta,

Ou um cego que pinta com a clarineta!
–É isso a arte?…”
                                     – Restou-lhe no Sublime Besta
Afogar o orgulho vazio e a virgindade.

* Tradução de Marcos Antônio Siscar

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Um poema de Nikolai Gumilev




O ENCONTRO

Hoje virás até mim.
Hoje enfim compreenderei
por que é tão triste e estranha
a solidão com a lua.

Pálida deterás
e em silêncio te despirás.
Não é assim como a lua
se levanta sobre o espesso bosque?

Enfeitiçado pela lua,
preso a ti,
serei feliz com minha vida,
as trevas e o silêncio.

Assim a besta das selvas tristes
ao sentir a primavera
escuta o sussurro das horas
e ver passar a lua.

Cautelosa se desliza no barranco
a despertar os sonhos da noite
e seu passo ágil se desenvolve
com os passos da lua.

Como ela quero calar-me,
olhar e prostrar,
guardando solene silêncio,
teu silêncio, oh, Noite!

E haverá muitas luas claras
em mim e ao meu redor;
pálida costa de dunas
se abrirá chamando-me.

O mar ver e rumoroso
me trará as trevas
corais, flores e pérolas,
dons de terras distantes.

E o alento de mil seres
desvanecidos há muito tempo,
e o sonho obscuro das coisas mudas,
e o estrelado vinho.

Partirás e escutarei
o último cato da lua
e verei de novo como surge o dia
sobre a calma das dunas pálidas.

* Tradução de Ricardo Paz.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Três poemas de Mark Strand



CONQUISTA DO FILÓSOFO

O melancólico instante persiste,
E o oráculo depois da porta,
Sempre a torre, o barco, o trem distante.
Num lugar ao Sul matam um Duque,
Uma guerra se ganha. Aqui é muito tarde.

O melancólico instante persiste.
Aqui, uma tarde de outono sem chuva,
Num balaio, apenas duas alcachofras;
Sempre a torre, o barco, o trem distante.
Volta a doer a infância nesta cena?
Por que nesse relógio são 1 e 28?

O melancólico instante persiste.
Reino de mor: sua luz verde-amarela
Cai sobre a angústia do destino;
Sempre a torre, o bote, o trem distante.
Quer nossa visão que retenhamos
O peso intolerável destas coisas.

O melancólico instante persiste,
Sempre a torre, o bote, o trem distante.


PRESERVAR INTACTAS AS COISAS

Num campo
sou ausência
de campo.
Sempre
é assim.
Onde quer que esteja
sou o que falta.

Ao caminhar
separo o ar
e o ar
preenche sempre
os vazios
onde meu corpo esteve.

Todos temos razões
para nos mover.
Eu me movo
para preservar intactas as coisas.


MEU FILHO

À maneira de Carlos Drummond de Andrade

Meu filho,
meu único filho,
o que nunca tive,
seria hoje um homem.

Move-se
no vento,
sem nome nem carne.
Às vezes

vem
e apoia a cabeça,
mais leve que o ar,
em meu ombro

e lhe pergunto:
Filho
onde estás?
onde te escondes?

E me responde
com alento frio,
nunca ouviste
quando te chamei

e chamei
e continuei chamando-te
de um lugar
mais além
muito além do amor,
onde tudo
onde nada

quer nascer.

* Traduções de Pedro Fernandes de O. Neto 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Os nomes da edição n.14 da Revista 7faces



O estreito diálogo entre poesia e cinema compõe uma das faces da nova edição da revista cujas primeiras chamadas foram divulgadas em nossa página no Facebook desde há um mês. Essa face é representada pelo nome de Mário Peixoto, cineasta, roteirista e escritor brasileiro que nasceu em Bruxelas (?) em 1908 e morreu em 1992 no Rio de Janeiro. Peixoto é autor de livros como o romance O inútil de cada um, o roteiro Outono: jardim mar, os ensaios Escritos sobre cinema e o livro de poemas Poemas de permeio com o mar.

A edição incluirá, além de ensaios sobre as várias vertentes criativas de Mário Peixoto escritos por especialistas, poemas de Jonas Leite, Chary Gumeta (poeta mexicana traduzida por Pedro Fernandes), Rodrigo Novaes de Almeida, Lucas Rolim, Gabriel Abilio de Lima Oliveira, Carlos Augusto Pereira, Geovane Otavio Ursulino, Rosa Piccolo, Izabela Sanchez, Orlando Jorge Figueiredo, Diego Ortega dos Santos, Lucas Facó e Felipe Simas.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Três poemas de Jules Laforgue



MEDIOCRIDADE

No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saudam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o seu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.


LOCUÇÕES DO PIERROT XII

Mais outro livro ; ó nostalgias
Longe de todo este gentio,
Do tal dinheiro e do elogio,
Bem longe das fraseologias!

De novo um dos meus pierrots morto;
Daquele crônico orfelismo,
Coração pleno de dandismo
Lunar em um estranho corpo.

Nossos deuses se vão; sem cura,
Os dias, de mal a pior,
Já fiz o meu tempo. É melhor
Sim, entregar-se à Sinecura!


LAMENTO DA BOA DEFUNTA

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
– Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

* Tradução Régis Bonvicino

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Três poemas de Juan Manuel Roca



ARENGA DE UM QUE NÃO FOI À GUERRA

Nunca vi nos corrimões de uma ponte
A doce mulher com olho de assíria
Enfiando uma agulha
Como se fosse remendar o rio.
Nem mulheres sozinhas à espera nas aldeias
Que a guerra passe como se fosse outra estação.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Porque desde menino
Sempre perguntei como se ia à guerra
E uma enfermeira bela como um albatroz,
Uma enfermeira que corria por longos corredores
Gritou com grasnido de ave sem olhar para mim:
Já estás nela, rapaz, já estás nela.
Nunca fui ao país dos hangares,
Nunca fui porta-bandeira, hussardo, mujique de alguma estepe.
Nunca viajei de balão por eriçados países
Povoados de tropa e cerveja
Não escrevi como Ungaretti cartas de amor nas trincheiras.
Nunca vi o sol da morte a arder no Japão
Nem vi homens de grande pescoço
A repartir a terra num jogo de cartas.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Para ver a soldadesca a lavar os brancos estandartes
E de seguida a ouvi-los falar da paz
Ao pé da legião das estátuas.


CANÇÃO DO QUE FABRICA ESPELHOS

Fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de azougue:
O céu reflecte-se nos espelhos
E os telhados bailam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar noutra casa
Apagará os rostos conhecidos,
Porque os espelhos não contam o seu passado,
Não denunciam antigos moradores.
Alguns constroem prisões,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.


POEMA INVADIDO POR ROMANOS

Os romanos eram maliciosos.
Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.
Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.
Os romanos, Cassandra, eram manhosos.
Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.
Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.
Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristão,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.
Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.
O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.
Os romanos dão muito em que pensar.
Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.
Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.
O tempo é romano.

* Tradução de Nuno Júdice


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Quatro poemas de Joan Margarit



CASA DA MISERICÓRDIA

O pai fuzilado.
Ou, como diz o juiz, executado.
A mãe, a miséria e a fome,
a instância que alguém lhe escreve à máquina:
Saludo al vencedor, Segundo Año Triunfal,
Solicito a Vuecencia deixar os filhos
nesta Casa da Misericórdia.
O frio do seu amanhã está numa instância.
Os orfanatos e hospícios eram duros,
mas ainda mais dura era a intempérie.
A verdadeira caridade dá medo.
É como a poesia: um bom poema,
por mais belo que seja, tem de ser cruel.
Não há mais nada. A poesia é agora
a última casa da misericórdia.


SATURNO

Rasgaste os meus livros de poemas
e deitaste-os para a rua pela janela.
As folhas, como estranhas borboletas,
iam pairando por cima das pessoas.
Não sei se agora nos entenderíamos,
dois homens velhos, cansados e desiludidos.
De certeza que não. Deixemo-lo assim.
Tu querias devorar-me. Eu, matar-te.
Eu, o filho que tiveste durante a guerra.


VOZES DE CRIANÇAS

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro.


O SAPATEIRO

Costumávamos jogar ali à bola.
A praça da igreja erguia-se
uns dois metros acima de umas pequenas hortas
que estavam ao lado de um sapateiro.
Quando a bola caía, algum dos nossos
tinha de ir rápido dependurando-se.
Se o sapateiro chegava lá antes,
cortava-a com o seu cutelo.
Não sei que pescoço cortava na bola
de borracha daquelas crianças. Dava-me medo.
Um medo que já não era o mesmo
que o dos contos ou do quarto escuro.
Era um medo mais duro. Mais real.
Como quando tu estavas com outro,
ou quando morreu a nossa filha.

* Traduções Rita Custódio e Àlex Tarradellas

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Três poemas de Michael Hartnett



A ÚLTIMA VISÃO DE EOGHAN RUA Ó SÚILLEABHÁIN 

A vaca da manhã jorrou
névoa-leite em cada vale
e o ruído de pés veio
dos lados alvos das colinas.
Vi como fantasmas
meus companheiros
e em vez das costumeiras pás
tinham rosas em suas espáduas.

*

Eu digo adeus ao verso inglês,
que achei, por certo, em rede inglesa:
meu Lorca estendendo seus braços
a fim de amar a beleza das balas,
Pasternak, que sobreviveu a Stálin
e morreu devido a menores bestas;
a todos os poetas que amei,
de Wyatt a Robert Browning;
ao Padre Hopkins na tumba sempre cheia
de gente, e ao nosso bicho-papão Yeats,
que nos impôs o exílio

em ilhas de maus versos.

Entre os meus amigos vivos
não há poeta que eu não ame,
ainda que alguns escrevam
com seus corações tão acres;
eles são uma arte, nossas muitas artes.

Poetas que prosseguem
não fazem paz nem pacto.
O ato da poesia
É rebelde de fato

*

Não é nova esta estrada,
nem coisas novas eu forjo.
Não pode ser retirada
das mentes aspirador-de-pó
a ideia de servir a reis mortos.

Não sou novo em nada.
Nem uma boca só eu sou
tentando ver se cava
um nicho para a cultura
no clero-conturbado sul.

Mas não verei, calado,
a queda dos grandes:
os que andam em trapos
pelas cidades, errantes
tendo no inglês um preciso pecado,
língua pra vender porcos no mercado.

Fiz minha escolha e parto
com mínimo choro.
Vim com minha voz parca
cortejar a língua do meu povo

* Traduções de Marcelo Tápia

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Um poema de Brendan Kennelly



PROVA 

Queria que tudo fosse livre de mim, 
Nunca matar os dias com suposições, 
Nunca sentir que eles sofrem imposições 
De serem isto e não aquilo. 
É fácil, sim, Mutilar o momento, aleijá-lo 
Com expectativas, forçá-lo a definir-se 
A si mesmo. Além de tudo que sou, o sol 
Espalha seus raios como se por acaso. 

A raposa come o próprio pé na armadilha 
Para livrar-se. Enquanto manca pela relva, 
É a terra que parece sangrar. 
Quando chega, então, a luz do dia, 
Quem sabe da dor que a noite leva? 
De prova é que não vou precisar.

* Tradução de Marcelo Tápia

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Um poema de Mario Vargas Llosa



POEMA PARA A EXORCISTA

A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.
Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras - cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão - trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.
Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.
Mas os combates nocturnos
deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afecto e de amizade.

Nova York, novembro de 2001


* Tradução de Pedro Calouste

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Dois poemas de Adam Zagajewski



ARCO-ÍRIS

Retornei à Rua Longa com seu negro
halo de poluição incrustada – e à Rua Karmelicka
onde bêbados de faces azuis esperam
o fim do mundo em delirium tremens
feito os anacoretas de Antioquia, e onde
bondes tremem pelo excesso de tempo,
e à minha juventude, que não quis
esperar e não sobreviveu, vítima de longos
afogos e estritas vigílias, voltei a
ruelas sombrias e aos sebos,
a conspirações capazes de ocultar
afetos e traições, à preguiça,
aos livros, ao tédio, ao esquecimento, ao chá,
à morte, que levou tantos
e não devolveu ninguém,
a Kazimierz, bairro vacante,
vazio mesmo de lamentação,
a uma cidade de chuva, ratos e lixo,
à infância, que se evaporou
como uma poça brilhante com um arco-íris de gasolina,
à universidade, que ainda tenta desairosamente
seduzir uma nova geração de ingênuos,
a uma cidade que agora vende
até os próprios muros, desde que vendeu
sua fidelidade e honra há tanto tempo, a uma cidade
a que amo desconfiadamente
e a qual nada posso oferecer
senão o que já esqueci e o que me lembro
senão um poema, senão a vida.


A PROFESSORA DE DICÇÃO SE APOSENTA DA ESCOLA DE TEATRO

Alta, tímida, digna
de uma maneira antiquada,
Ela dá adeus aos estudantes, à faculdade,
e olha ao redor com suspeição.
Ela tem certeza de que eles mutilarão a língua mãe
impiedosa e impunemente.
Ela apanha o certificado (verificará
os erros depois). Dá meia-volta e desaparece na coxia,
nas sombras aveludadas dos holofotes,
em silêncio.
Ficamos sozinhos
a retorcer línguas e lábios.

* Traduções de Pedro Gonzaga


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Três poemas de Lila Ripoll



VIM AO MUNDO EM AGOSTO

Sou triste de nascença e sem remédio.
Vim ao mundo no triste mês de agosto
o mês fatal das chuvas e do tédio,
e nasci quando o sol estava posto.

Vim ao mundo chorando... (o meu presságio!)
Um vento mau marcava na vidraça
o plangente compasso de um adágio,
anunciando agoirento uma desgraça.

Sou triste. É irremediável este mal.
E eu não quero curar minha tristeza.
Só ela para mim tem sido leal,
Na minha via-sacra de incerteza.

Sou triste de nascença. É mal sem cura.
A vida não desfez meu nascimento.
Sou a menina triste e sem ventura,
que em agosto nasceu, com chuva e vento.

RETRATO

Chego junto do espelho. Olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes como agosto,
olhando para tudo com tristeza!

Pequeno rosto oval. Lábios fechados
para não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.

A longa testa aberta, pensativa.
No meio um traço, leve, vertical,
indicando uma ideia muito viva
e os sérios pensamentos: — o meu mal!...

O corpo bem magrinho e pequenino.
— Sete palmos de altura, com certeza. —
Tamanho de qualquer guri menino
que a idade, a gente fica na incerteza!

E nada mais. A alma? Ninguém vê.
O coração? Coitado! está bem doente.
Não ama. Não odeia. Já não crê...
E a tudo vive alheio, indiferente!...

Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.
E sabe desde quando estou descrente!...


CANÇÃO DE AGORA

Ontem meu peito chorava.
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.

Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.

Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.

Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.

Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.



segunda-feira, 26 de junho de 2017

Dois poemas de Ana Carolina Vaz



O DIA ESQUECIDO

Um dia, pela manhã
Passearei no jardim que dá para o nevoeiro.

Hoje não!
Que tenho pressa
E gente esperando por mim no alto das escadas.

Hoje não!
Que tenho o dia preenchido
De olhos inquisidores, mão de veludo, palavras vagas.

Hoje não!
Que tenho o dia
Mil vezes suicida
Com eléctricos, deveras, gente perdida.

Um dia...
Pela manhã!


MENINO TONTO

Menino tonto...
que desenha as mãos dos homens como se fossem garras

E para quem os sinos
nasceram um dia com olhos
(Quem sabe lá se os sinos têm olhos?!...)

Menino tonto...
que desenha bonecos transparentes
para lá de si próprio.

Menino tonto..,
que tem uma lágrima longa guardada
para lá da loucura.

Menino tonto...
Dos carros tenebrosos com rodas erguidas em todos os sentidos
e do mar de ondas negras do lápis que ontem pediu à mãe...

Menino tonto...
dos barcos à vela
com uma estrela pendurada.
Menino tonto... Ó meu menino tonto!
Vamos por outra estrela na amaruda?


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Um poema de Rosario Castellanos



AUTORRETRATO

Sou uma senhora: tratamento
difícil de conseguir, em meu caso, e mais útil
para alternar com qualquer outro título
acrescentado a meu nome em qualquer academia.

Assim, pois, olho meu prêmio e repito:
sou uma senhora. Gorda ou magra
a depender da posição dos astros,
dos ciclos glandulares
e outros fenômenos que não compreendo.

Loira, se escolho uma peruca loira.
Ou morena, segunda alternativa.
(Na verdade, meu cabelo grisalha, grisalha.)

Sou mais ou menos feia. Isso depende muito
da mão que aplica a maquiagem.
Minha aparência mudou ao longo do tempo
– embora nem tanto como disse Weininger
que muda a aparência do gênio. Sou medíocre.
O que, por uma parte, me exime de inimigos
e, por outra, me dá a devoção
de algum admirador e a amizade
desses homens que falam por telefone
e enviam longas cartas de felicitação.
Que bebem lentamente uísque sobre as pedras
e falam de política e de literatura.

Amigas... hmmm... as vezes, raras vezes
e em muito pequenas doses.
Em geral, evito os espelhos.
Digo o de sempre: que me visto muito mal
e que faço o ridículo
quando pretendo flertar com alguém.

Sou mãe de Gabriel: você já sabe, esse menino
que um dia se tornará juiz incorruptível
e que talvez, além disso, exerça o papel de carrasco.
Enquanto tanto o amo.

Escrevo. Este poema. E outros. E outros.
Falo de um lugar.
Colaboro em revistas de minha especialidade
e um dia por semana publico num jornal.

Vico em frente ao Bosque. Mas quase
nunca volta os olhos para olhá-lo. E nunca
atravesso a rua que me separa dele
e passeio e respiro e acaricio
a copa rugosa das árvores.

Sei que é obrigatório escutar música
mas fujo dela com frequência. Sei
que é bom ver pintura
mas não vou nunca às exposições
nem à estreia teatral nem ao cineclube.

Prefiro ficar aqui, como agora, lendo
e, se apago a luz, pensando em rato
em musaranhos e outras necessidades.

Sofro melhor por costume, por herança, por não
diferenciar-me mais de meus congêneres
que por causas concretas.

Seria feliz se eu soubesse como.
Isto é, se me houvessem ensinado os gestos,
as falas, as decorações.

Ao contrário me ensinaram a chorar. Mas o pranto
é em mim um mecanismo decomposto
e não choro na câmara mortuária
nem na ocasião sublime nem frente à catástrofe.

Choro quando queima o arroz ou quando perco
o último recibo do condomínio.


* Tradução de Pedro Fernandes

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Três poemas de Wallace Stevens



TATUAGEM

A luz lembra uma aranha.
Caminha sobre a água.
Caminha pelas margens da neve.
Penetra sob as tuas pálpebras
E espalha ali suas teias –
Duas teias.

As teias de teus olhos
Estão atadas
À carne e aos ossos teus
Como a um caibro ou capim.

Há filamentos de teus olhos
Na superfície da água
E nas margens da neve.


CANÇÃO

Há coisas esplêndidas acontecendo
No mundo,
Coelhinho.
Há uma donzela,
Mais doce que o som do salgueiro,
Mais suave que água rasa
Correndo sobre seixos.
No domingo,
Ela veste um casaco longo,
Com doze botões.
Conta isso à tua mãe.


DEPRESSÃO ANTES DA PRIMAVERA

O galo canta,
Mas rainha alguma se levanta.

Minha loura tem cabelos
Deslumbrantes,
Como o cuspo das vacas
Costurando o vento.

Uô! Uô!

Mas cocoricó
Não traz curru nenhum,
Nenhum curru-curru.

Mas rainha alguma vem
Com verde chinelinha.


* Tradução de Paulo Henriques Britto

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Dois poemas inéditos de Juan Goytisolo



DESMEMÓRIA

1
Dissolução da memória
como neve
num vaso d’água
A imagem que se esfuma,
o calor que existiu
no leito vazio.
Invalidez.
Não há
consolo em olhar
a foto desfeita,
tudo se esquece,
tudo fica para trás.

2
Desmemória que chega
pelas margens.
Datas, lugares, nomes,
apagados sem piedade.
Pedra jogada,
relvado do esquecimento.
Bagagem de luz
afrontarás o abismo,
sombra de ti mesmo
no ponto final.

3
Contempla no espelho
um corpo que não é seu.
Ser antropomorfo,
deambulou erguido
no tempo já remoto.
A vida o venceu.
Envolto em si mesmo
assiste sem memória
a sua consumação.

4
Feliz o que se morre
sem saber que se morre.
Privilégio dos ancestrais
sem rituais funerários
nem ficções de dor.
Se está e já não está.
Ascendentes e prole
não sofrem da ausência.
Placidez envolta,
ar limpo de voo.
Ser tartaruga ou cegonha.

5
Contempla-me um gato
com olhos de aristocrata inglês.
Que espera de mim?
Por que tanta fixação?
Há uma censura muda
a uma maldade que escondo?
É um convite
a expiar uma pena?
O gato não é um gato.
É minha alma e minha consciência


CINZAS

1
Cinzas
já sem brasa alguma.
Tudo consumado.
Nada é a chama
que acendeu,
o ardor que dá vida
à voz e à imagem.
Tudo se extingue
e dissipa
a embriaguez do instante

2
Ao admirar teu corpo,
de membros rijos e vigorosos,
lamento minha degenerescência
na ficção do tempo.
Impossível recolher-se
ao peito hirsuto
e ao vigor de teus braços.
O abismo de um século nos separa.
Mas tua apagada imagem,
ao fio dos anos,
desafia
o efêmero mesquinho
e me concede,
dono do espelhismo,
tua plenitude recobrada.

* Traduções de Pedro Fernandes

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Dois poemas de Marianne Moore



OS PEIXES

vade-
ando negro jade.
     Das conchas azul-corvo um marisco
     só ajeita os montes de cisco;
          no que vai se abrindo e fechando

é que
nem ferido leque.
     Os crustáceos que incrustam o flanco
     da onda ali não encontram canto,
          porque as setas submersas do

sol,
vidro em fibras sol-
     vidas, passam por dentro das gretas
     com farolete ligeireza —
          iluminando de vez em

vez
o oceano turquês
     de corpos. A correnteza crava
     na quina férrea da fraga
          uma cunha de ferro;  e estrelas,

grãos
de arroz róseos, mães-
     d'água tintas, siris que nem lírios
     verdes e fungos submarinos
          vão deslizando uns sobre os outros.

As
marcas externas
     de mau-trato estão todas presentes
     neste edifício resistente —
          todo resquício material

de a-
cidente — ausência
     de cornija, machadadas, queima e
     sulcos de dinamite — teima em
          ressaltar; já não é o que era

cova.
Repetida prova
     demonstrou que ele pode viver
     do que não pode reviver
          seu viço. O mar nele envelhece.


NÃO HÁ CISNE TÃO LINDO

“Não há água tão quieta quanto as
     fontes mortas de Versailles.” Não há cisne,
de olhar cego bistre oblíquo
e pernas gondoleantes, tão lindo
     quanto o de louça com chintz,
de olhos cor de corça e coleira
de ouro denteada a indicar de quem foi.

Alojado no candelabro de
     Luís XV, com botões de matiz de
crista-de-galo, com dálias,
ouriços-do-mar e sempre-vivas,
     no mar de ramalhetes de
polidas e esculpidas flores
ele pousa – livre e altivo. O rei é morto.

* Tradução de José Antonio Arantes