segunda-feira, 12 de junho de 2017

Três poemas de Wallace Stevens



TATUAGEM

A luz lembra uma aranha.
Caminha sobre a água.
Caminha pelas margens da neve.
Penetra sob as tuas pálpebras
E espalha ali suas teias –
Duas teias.

As teias de teus olhos
Estão atadas
À carne e aos ossos teus
Como a um caibro ou capim.

Há filamentos de teus olhos
Na superfície da água
E nas margens da neve.


CANÇÃO

Há coisas esplêndidas acontecendo
No mundo,
Coelhinho.
Há uma donzela,
Mais doce que o som do salgueiro,
Mais suave que água rasa
Correndo sobre seixos.
No domingo,
Ela veste um casaco longo,
Com doze botões.
Conta isso à tua mãe.


DEPRESSÃO ANTES DA PRIMAVERA

O galo canta,
Mas rainha alguma se levanta.

Minha loura tem cabelos
Deslumbrantes,
Como o cuspo das vacas
Costurando o vento.

Uô! Uô!

Mas cocoricó
Não traz curru nenhum,
Nenhum curru-curru.

Mas rainha alguma vem
Com verde chinelinha.


* Tradução de Paulo Henriques Britto

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Dois poemas inéditos de Juan Goytisolo



DESMEMÓRIA

1
Dissolução da memória
como neve
num vaso d’água
A imagem que se esfuma,
o calor que existiu
no leito vazio.
Invalidez.
Não há
consolo em olhar
a foto desfeita,
tudo se esquece,
tudo fica para trás.

2
Desmemória que chega
pelas margens.
Datas, lugares, nomes,
apagados sem piedade.
Pedra jogada,
relvado do esquecimento.
Bagagem de luz
afrontarás o abismo,
sombra de ti mesmo
no ponto final.

3
Contempla no espelho
um corpo que não é seu.
Ser antropomorfo,
deambulou erguido
no tempo já remoto.
A vida o venceu.
Envolto em si mesmo
assiste sem memória
a sua consumação.

4
Feliz o que se morre
sem saber que se morre.
Privilégio dos ancestrais
sem rituais funerários
nem ficções de dor.
Se está e já não está.
Ascendentes e prole
não sofrem da ausência.
Placidez envolta,
ar limpo de voo.
Ser tartaruga ou cegonha.

5
Contempla-me um gato
com olhos de aristocrata inglês.
Que espera de mim?
Por que tanta fixação?
Há uma censura muda
a uma maldade que escondo?
É um convite
a expiar uma pena?
O gato não é um gato.
É minha alma e minha consciência


CINZAS

1
Cinzas
já sem brasa alguma.
Tudo consumado.
Nada é a chama
que acendeu,
o ardor que dá vida
à voz e à imagem.
Tudo se extingue
e dissipa
a embriaguez do instante

2
Ao admirar teu corpo,
de membros rijos e vigorosos,
lamento minha degenerescência
na ficção do tempo.
Impossível recolher-se
ao peito hirsuto
e ao vigor de teus braços.
O abismo de um século nos separa.
Mas tua apagada imagem,
ao fio dos anos,
desafia
o efêmero mesquinho
e me concede,
dono do espelhismo,
tua plenitude recobrada.

* Traduções de Pedro Fernandes

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Dois poemas de Marianne Moore



OS PEIXES

vade-
ando negro jade.
     Das conchas azul-corvo um marisco
     só ajeita os montes de cisco;
          no que vai se abrindo e fechando

é que
nem ferido leque.
     Os crustáceos que incrustam o flanco
     da onda ali não encontram canto,
          porque as setas submersas do

sol,
vidro em fibras sol-
     vidas, passam por dentro das gretas
     com farolete ligeireza —
          iluminando de vez em

vez
o oceano turquês
     de corpos. A correnteza crava
     na quina férrea da fraga
          uma cunha de ferro;  e estrelas,

grãos
de arroz róseos, mães-
     d'água tintas, siris que nem lírios
     verdes e fungos submarinos
          vão deslizando uns sobre os outros.

As
marcas externas
     de mau-trato estão todas presentes
     neste edifício resistente —
          todo resquício material

de a-
cidente — ausência
     de cornija, machadadas, queima e
     sulcos de dinamite — teima em
          ressaltar; já não é o que era

cova.
Repetida prova
     demonstrou que ele pode viver
     do que não pode reviver
          seu viço. O mar nele envelhece.


NÃO HÁ CISNE TÃO LINDO

“Não há água tão quieta quanto as
     fontes mortas de Versailles.” Não há cisne,
de olhar cego bistre oblíquo
e pernas gondoleantes, tão lindo
     quanto o de louça com chintz,
de olhos cor de corça e coleira
de ouro denteada a indicar de quem foi.

Alojado no candelabro de
     Luís XV, com botões de matiz de
crista-de-galo, com dálias,
ouriços-do-mar e sempre-vivas,
     no mar de ramalhetes de
polidas e esculpidas flores
ele pousa – livre e altivo. O rei é morto.

* Tradução de José Antonio Arantes



segunda-feira, 22 de maio de 2017

ABECEDÊ, de Vítezslav Nezval (fragmento)


A
Chamada seja cabana simples
Tragam pro Vltava o palmas! seu equador
Da simples casa tira o caracol seus chifres
sem abrigo pra cabeça o pobre só tem dor

* * *

C
brilha como a lua sobre as águas
Míngua desaparece lua homérica
morreram para sempre os romances dos gondoleiros
siga em frente capitão até a América

D
arco que se tensa da direção oeste
O índio descobriu rastos na terra
Sus últimos companheiros morreram faz já tempo
e a lua cresce  pradaria   pedras

* * *

F
bicam pássaros santos em Assis
a casca das árvores acima do divino amante
Imagens! aromas do incenso fumegante
na surrada loja de miudezas

* * *

JQ
Até a França através da Alemanha
com sua gaita de foles o tocador sulca ventos
Lentas canções do caminho
sibila seu instrumento

* * *

RRRRR
Os tambores começaram sua marcha
por sete mares por nove pontes
RRR  os comediantes da Noveforças
Alçaram tendas à beira do Nilo e suas fontes

S
Nas planícies da escura Índia
viveu John encantador de sepentes
Amava Elis sibilante dançarina
E ela o mordeu    Morreu de sífilis

* * *

U
me lembras nossa meninice tranqüila
o mugir das vacas no torto riacho
messias pastores em vestes de linho
e o esmeralda dos frutos no horto

V
reflexo da pirâmide na areia ardente

V
construtivismo digno do teatro DISK

W
Casiopeia imaculada como um piloto
sobrevoa a cabeça do faraó  poderoso

X
signo de Caim na cabeça da víbora
X eternidade X veneno
X ossos cruzados O tempo na flor apodrece
X no final  X no começo

Z
na despedida  digamos adeus então
Décima musa lembras os dentes de Sagitário
Cada despedida tem dentes? Sim, claro!
Subir a Torre Eiffel por um cabo dentado

* Tradução de Odile Cisneros. Publicado inicialmente na revista Sibilia


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Três poemas de Gilka Machado



NOITE DE SELVAGEM

Entro na selva. A noite é espessa. De centenas
de pirilampos toda a mata se ilumina;
astros movem no espaço as rútilas antenas,
como insetos de luz, numa etérea campina.

Ergo ao céu, desço à terra a assombrada retina,
e ante as luzes astrais e ante as luzes terrenas,
a terra e o céu, o céu e a terra, julgo, apenas,
um céu que se distende, alonga e indetermina.

Em cima há tanta luz que o olhar erguido pasma!
Cada estrela parece um luminoso miasma
a medrar, a fulgir da treva na espessura.

E a noite de tão negra, e tão ampla, e tão densa,
é um pântano infinito, uma lagoa imensa,
a decompor-se em luz, a efervescer na altura.


SÍMBOLOS

Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento
do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua...
Um símbolo descubro aqui, neste momento
esta rocha, este mar.. a minha vida e a tua.

O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento
de quem maltrata e, após, se arrepende e recua.
Como compreendo bem da rocha o sentimento!
são muito iguais, por certo a minha mágoa e a sua.

Contemplo neste quadro a nossa triste vida;
tu és dúbio mar que, na sua inconsciência,
tem carinhos de amor e fúrias de demência!

Eu sou a dor estanque, a dor empedernida,
sou a rocha a emergir de um côncavo de areia,
imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia.

INFÂNCIA

Aquela criança
que eu não pude ser,
criança triste
que conservo ainda,
nunca teve o prazer
de acender um balão,
em tua noite linda,
S. João.

Aquela criança
que devera ser
e a miséria tolhia,
tudo esperava de teu místico poder;
e ardia,
e ardia,
na tua noite fria,
cheia de devoção,
ao cativo balão
que se enchia
e fulgia,
dentro da minha imaginação.

A velha criança
que se fez meu ser,
cuja louca esperança
não se finda,
guarda ainda
a ilusão
de surpreender
a gurizada
alvoroçada,
com o mais belo balão...
Faze o milagre, abre-me o peito S. João,
realiza a minha antiga aspiração:
quero morrer em tua noite linda,
quero soltar em tua festa o coração!...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Três poemas de Jerzy Ficowski



Não consegui salvar
nem uma vida

não soube deter
nem uma bala

então percorro cemitérios
que não existem
busco palavras
que não existem
corro

para o socorro não pedido
para o resgate tardio

quero chegar a tempo
mesmo que tarde demais

*

Muranów se ergue
sobre as camadas do morrer
a fundação apoiada em osso
os porões nas valas
esvaziadas de gritos

Foi ou não foi está como está

Há uma calmaria de gemidos removidos
halo negro do fogo defunto
Muranów fortemente plantado
na sepultura da memória
a maioria das cartas chega

Foi ou não foi está como está

E eu como ele elevado
até a superfície das cinzas
sob as estrelas de vidro estilhaçado

Foi ou não foi está como está

eu queria apenas calar
mas calando minto

eu queria apenas andar
mas andando pisoteio


CARTA A MARC CHAGALL

I

Que pena que o senhor não conheceRosa Gold,
a mais triste rosa dourada.
Ela só tinha sete anos, quando acabou essa guerra.
Não a vi nunca,
mas ela não tira os olhos de mim.
Duas vezes as neves derreteram sobre aqueles olhos,
duas mil vezes morreram
os olhos de seis anos de Rosa Gold.

Meu irmão saiu de noite, bebeu água de uma poça e morreu. Nós o enterramos no bosque, no meio da noite. Uma vez o tio saiu do abrigo e nunca mais voltou. Ficamos escondidos assim 18 meses, até que chegaram os russos. Não sabíamos andar e até hoje temos pernas fracas. E Rosa está sempre triste, chora com frequência e não quer brincar com as outras crianças.

Que bom que o senhor não conhece Rosa Gold!
Explodiriam em fumaça os cachos de lilases, nos quais deitam os enamorados.
A rabeca do músico verde lhe cortaria a garganta.
O portão do cemitério judeu voltaria ao pó
ou sufocaria no mato de tijolos daninhos.
A tinta carbonizaria as telas.
Pois o último, o mais horripilante grito
é sempre apenas o silêncio.

Que pena que o senhor não conhece Frycek!
Sua mãe conseguiu dá-lo à luz um tantinho antes da guerra.
E ele queria ser um arenque, que tem seu próprio sal
ou uma mosca, que é  livre para zumbir.
Pois lhe era permitido ser apenas um pouco.
Atrás do armário, sonhava com cebola,
e como não iria chorar com sonhos assim?!

Eu ficava atrás do armário, não jantava. Quando vinha alguém ficava quietinho, nunca saía ao sol. Me cobria com um edredom cheio de piolhos. Pensei que eu iria ser sempre assim. Eles falavam que iam viajar para Częstochowa e que iam me deixar. Queria chorar, mas pensava: e daí, quando eles viajarem vou sair de trás do armário.

Que bom que o senhor não conhece Frycek, que atrás do armário fingia ser uma teia de aranha!
A filhinha sentada na janela verde.
Por anos chia o samovar de Vitebsk.
Soltam fumaça as sonolentas lâmpadas de querosene.
O arenque alado lá do céu abençoa as feiras.
Enfim, para que acreditar em Frycek?
Afinal, Frycek não é Deus.

II

E um dia chegou a mamãe e me levou para outro apartamento, onde precisava chamar a mamãe de “senhora” e não podia chamá-la de mamãe.
Às vezes me esquecia de chamar a mamãe de “senhora” e a mamãe ficava muito nervosa. Mas para mim era muito difícil me acostumar com isso, era tão duro que de vez em quando precisava sussurrar no ouvido da mamãe algumas vezes: “Mamãe, mamãe, mamãe”. E perguntava: “Mamãe, quando a guerra acabar eu vou poder chamar você em voz alta de – “mamãe”?

Eis os versículos do Novíssimo Testamento.
Nele seis milhões de laudas carbonizadas,
e mira-se nas sobreviventes, faz anos,
o castiçal vermelho do incêndio.
E há também o testemunho das coisas.
No espelho do barbeiro
o terror barbudo
despertou círculos cada vez mais amplos, mais amplos,
como na água verde e triste,
e explodiram aquele mundo.
Não sobrou nem o reflexo.
Mandaria para o senhor, senhor Chagall,
nem que fosse um pequeno caco do espelho,
mas eles já estão nas profundezas
do estrato de uma era morta,
e ao redor deles a abundância de ossos,
os quais fazem muita questão
que se silencie um pouco sobre eles,
os quais jazem em todos os lugares incógnitos,
e que se reze por eles
em voz alta
a palavra: “Mamele”

A criança tinha muito medo da morte. Se agarrava à mãe e perguntava: “Mamãe, a morte dói muito?” A mãe chorava e falava: “Não, é bem rapidinho”- e assim as fuzilaram.

E surgiram novos desertos:
as areias de Majdanek, Sobibór,
as dunas de Treblinka e Bełżec[1],
onde o vento deita para o descanso eterno
não sílica, mica e arenito –
triturados na mó dos mares antigos –
mas cálcio e carbono
da estirpe humana reduzida a pó.
Eu – ser humano, eu – filho desta terra,
eu – irmão não queimado daqueles,
ainda vejo como o galo do senhor, que ficou cego,
protege as sobras dos assuntos humanos,
e no último dia da destruição
se eleva acima das cinzas.

III

Nos terrenos dos antigos campos da morte, os bandos de ladrões grassam, procurando o ouro nas camadas de cinzas que restaram dos prisioneiros queimados.

Na escuridão, as cinzas
fluem pelas ampulhetas crivadoras.
E no ar é assim
como se respirasse o seu último suspiro.
Às vezes, a estrela ressuscitada de sob a terra
alumia a noite:
um dente de ouro extraído das cinzas.
E então dá para ver nesse brilho
as mãos dos antropoides escorrendo vermelho.
Hoje conheci estas mãos,
embora de dia estejam limpas como uma hóstia:
batiam palmas para os trens que passavam,
e nos quais nos deixaram para sempre
Rosa Gold e Frycek de detrás do armário,
deixando os seus mortos.
Creio que acharão abrigo
e que ainda os encontrarei
nos recantos seguros
das cores oraculares
nos seus quadros, senhor Chagall.

* Traduções de Piotr Kilanowski. Publicado inicialmente em Qorpus.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Cinco poemas de Maria Teresa Horta



JOELHO

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.


EXERCÍCIO

Exercícios do teu corpo
oculto
na sua roupa

adivinho-te a dureza
o movimento sedento
a macieza da boca

adivinho o teu carinho
na sede dos meus
joelhos

adivinho o teu
desejo
sobre a pele dos meus seios


QUOTIDIANO

Tu permites que eu vá
mas também me reténs
tentando seguir a minha falta

Imaginava que fujo enquanto me tens
e supões-me estar perto
quando afinal já parto

Tu ficas atento, inventas passagens
contas pelos dedos
tudo aquilo que faço

E quando me disfarço fechas os olhos
àquilo que importa
Finges que não sabes
abres a janela e trancas-me a porta


SEM PRESSA

Jamais apresso nada
no amor
Gosto que dure mais
a cada hora

Ter e esquecê-lo
recusá-lo e inventá-lo
fora

Jamais empurro nada
no amor
Ontem como foi
muito melhor agora

Desdizê-lo e desejá-lo
a cada passo,
fazê-lo deitar comigo e possuí-lo
Atá-lo ao meu corpo num abraço


FOGO

Despe-me o vestido
pela cabeça
até ao cimo da nudez
e ainda
desce mais as mãos pelo meu corpo

Apaga esse fogo
que absorto
me consome devagar até a cinza


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Dois poemas inéditos de Hilda Hilst



À LA ADÉLIA

lavo panelas roupas e pratos
e me sinto um trapo.
meu homem me engana
com as minas bacanas
vestidas de prata, brinco brilhante

devo dizer
lavo as minhas panelas
e me sinto bela
como diz Adélia?

levanto cansada
carregando a pasta
entro no meu carro
e penso: como era bom
quando o homem provia
o sustento da casa
dos filhos e filhas.
como era bom
quando o homem provia!

amei casei pari
e agora de noite
meu homem namora
as mulheres do vídeo
moçoilas fagueiras
belas rameiras
e eu me pergunto
vida correta pra quê?
vontade de mudar o mundo
ser Joana de baixo
como a cada noite
no vídeo se vê
devo bater
o osso no prato
e não achar um saco?

*

Não me lamentes à noite, eu sob a terra.
Chora um pouco o amor que te tomei
E dei-o antecipadamente a ela.
Mas não chores demais. E também não esqueças.
Por que direi que ficarei contente
Se à tarde caminhares sobre o verde
com teu andar curioso e adolescente
Acompanhando um outro andar igual?
Eu não direi. Mas nunca me lamentes.

E também não esqueças do vento dos passeios
E os arabescos inúteis do pátio de recreios
Na visita de amor à pequenina irmã.
Como nos rimos então! Olhávamos o alto, a torre
O infinito e todos ao redor olhavam aquele chão!

Mas nunca me lamentes. Chora um pouco, isto sim
A brevidade crua deste amor presente.

* De Da poesia (Companhia das Letras, 2017)


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Três poemas de António José Forte



O POETA EM LISBOA 
Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha — numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.


RESERVADO AO VENENO

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequenas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração 
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixo nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos anos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é um dia para palavras


MEMORIAL
As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
– mesmo dos que estavam ausentes

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Quatro poemas de Robert Lowell



O PESCADOR BÊBADO 

A chafurdar neste maldito antro
Eu lanço o anzol ao peixe que me atrai
(Em verdade, do arco de jeová não pendem
Potes de ouro a vergarem-lhe as pontas);
Sangrentas as bocas, só as irisadas trutas
Mordem-me a isca. E na bolsa de lona
Em torno, outras saltavam, até que a traça
Corroeu-lhe o tecido, desgastável.

Para saber o dia, um calendário;
Um lenço, para afastar os mosquitos;
Com a tempestade, sem estofo o catre
E eu com uma garrafa sob o braço;
A garrafa de uísque cheia de iscas;
E calças de pijama: serão termos
Próprios a avaliar do verme a líquida
Raiva no ventre a fervilhar da idade?

Pescar, outrora, era questão de sorte –
Ó vento! Sopra frio, sopra quente.
Os sóis deixa ficar ou pular fora:
A vida dançava a jiga no jorro –
Do cachalote, e fluente e obscena a pesca
Do pescador lavava a consciência.
Crianças! Baba a memória, enfurecida,
Sobre a glória dos charcos do passado.

Tépido agora o rio, vaza e empoça
Suas águas cruentas em enseadas;
Dentro de meu sapato, um grão de areia
Imita a lua anta a desfazer
O Homem, e até a criação; o pútrido
Remorso empestou já a sua fonte;
Assemos de baleia a raiva trilha.
E este da velhice o caldeirão.

Não há algum modo de lançar o arpão
Fora deste dinamitado córrego?
Do pescador os filhos, quando rasas
As águas somem, têm de esquadrinhar.
Com isca untada, apanharei o Cristo
E enquanto o Príncipe da Treva espreita
Meu sangue até o seu estígio termo...
Anda sobre a água o Homem-Pescador. 

* Tradução de Octavio Mora


A HORA DO GAMBÁ 


para Elizabeth Bishop

Lá em sua morada espartana
pelo inverno todo ainda mora a solitária senhora herdeira
da Ilha Nautilus:
suas ovelhas ainda pastam nas colinas acima do mar.
Seu filho é um bispo. Seu vigia,
eminente membro de nossa comunidade;
ela chegou à senilidade.

Ansiando por
um sossego sacerdotal
como do século da Rainha Vitória,
compra mil coisas,
máculas que guardam sua praia,
e deixa que se desfaçam

A estação está doente -
perdemos nosso milionário de verão,
aquele que parecia ter saído duma revista de modas.
Seu escaler foi leiloado a pescadores.
Um vasto vermelho vivo veste a Colina Azul.

Agora nosso efeminando
decorador limpa sua lojinha para o outono;
sua rede de pescar está cheia de enfeites, rolhas alaranjadas,
e amarelas como seus banquinhos e corujinhas;
bugigangas sem venda,
ele gostaria mesmo é de se casar.

Numa noite escura
meu Ford trepou até o topo da colina;
procurei carros de namorados. Luzes baixas,
estavam alinhados juntos uns dos outros, cascos contra cascos,
onde os gavetões do cemitério da cidade...
Minha mente está doente.

Um rádio de carro choraminga
"Amor, ó displicente amor..." Ouço
minha alma doente soluçar em cada gota de sangue,
como se minhas mãos estrangulassem
cada uma de suas gargantas...
sou o próprio inferno;
não há ninguém aqui -

somente gambás que procuram
o que devorar à luz do luar.
Caminham passo a passo até o Centro;
listras brancas, chamas vermelhas de olhos lunáticos
à sombra da torre estreita e espiralada branca de cal
da Igreja da Santíssima Trindade.

Fico de pé na sacada dos fundos
e respiro ar puro -
uma gambá com uma fieira de filhotes fareja restos de comida
numa lata de lixo. Mete sua cabeça de espátula num pote
de creme de leite, abaixa sua cauda de avestruz.,
e não se deixa assustar.

* Tradução de Ary Gonzalez Galvão


A FOZ DO HUDSON 

Um homem sozinho fica ali, como a espiar as aves,
e raspa a neve salpicada em preto e branco
de uma bobina grisalha
abandonada, de cabo elétrico Westingghouse.
Ele não pode descobrir a América cantando
as cadeias dos condenados trens de carga
vindos dos trinta Estados. Que sacolejam, rangem,
rejeitam restos atirados no desvio ali embaixo.
Seu equilíbrio a custo se mantém.
Os olhos pingam
e ele vai à deriva no gelo espedaçado
estalejando o Hudson abaixo até o mar,
como as brancas placas soltas de um jogo de armar.

O gelo desce pro mar, qual relógio, em tique-taque,
Um negro torra
sementes de trigo na fumaça de carvão
que escapa de uma barrica perfurada.
Ar químico
invade New Jersey,
e cheira a café.

Do outro lado do rio
as cumeeiras das fabricas dos subúrbios tostam
ao sol amarelo-súlfur
da paisagem imperdoável.

* Tradução de Aíla de Oliveira Gomes.


NOITE DO SUOR

Mesa de trabalho, desalinho, livros, o abajur de pé,
coisas comuns, meu equipamento parado, a velha vassoura,
mas vivo num quarto arrumado,
há dez noites tenho sentido cãibras
formigando todo o branco manchado de meu pijama...
Um sal adocicado me perfuma e minha cabeça está molhada,
todo o mundo flutua e me diz que tudo vai bem;
o calor de minha vida encharca-se do suor da noite ─
uma vida, uma obra! Mas a descida vertiginosa
e o egoísmo da existência nos secam completamente ─
dentro de mim há sempre a criança que morreu,
dentro de mim há sempre o seu desejo de morrer ─
um universo, um corpo... nesta urna
a noite animalesca sua toda a ferida da alma.
Atrás de mim! Você! Sinto outra vez a luz
iluminar minhas pálpebras de chumbo,
enquanto os cavalos de cabeça cinza relincham
à procura da fuligem da noite.
Encharcado chapinho-me nos salpicos do dia,
um monte de roupa molhada, amargurado, trêmulo,
vejo minha carne e lençóis banhados de luz,
meu filho se explodindo em dinamite,
minha mulher... sua leveza muda o mundo,
e rompe o filamento de teia preta que vem dos palpos da aranha,
enquanto seu coração palpita e se agita como se fosse o de uma lebre.
Pobre tartaruga, tartaruga, se não posso purificar
aqui a superfície destas águas conturbadas,
absolve-me, ajuda-me, fortificando-me,

enquanto você suporta nas costas a alternação e o peso morto do mundo.

* Tradução de Ary Gonzalez Galvão

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Três poemas de Gabriel García Márquez



A MORTE DA ROSA

Morreu de mau cheiro.
Rosa igual, exata.
Subsistiu à sua beleza,
Sucumbiu à sua fragrância.
Não teve nome: talvez
lhe chamassem Rosaura,
Ou Rosa-fina, ou Rosa
do amor, ou Rosalva;
ou simplesmente Rosa,
como se chama a água.
Mais lhe valeria
ser sempre-viva, Dália,
pensamento com lua
como um ramo de acácia.

Mas ela será eterna:
foi rosa; e isso basta;

Deus a gurde em seu reino
à margem direita do alvorecer.

1945


SONETO QUASE INSISTENTE NUMA NOITE DE SERENATAS

Queria uma mulher de sangue e prata.
Qualquer mulher. Uma mulher qualquer,
quando nas noites de primavera
se ouve distante uma serenata.

Essa música é alma. E mesmo não fosse
verdade tanta mentira seria bom
saber que sua voz sempre retrata
o coração de uma mulher qualquer.

Quero querer com música. E quero
que me queiram com tom verdadeiro
Quase em azul e quase eternamente.

Será porque esse ritmo me arrebata,
ou talvez porque ouvindo serenatas
dói-me o Coração musicalmente.

1945


CANÇÃO

Chove neste poema
Eduardo Carranza


Chove. A tarde é uma
folha de névoa. Chove.
A tarde está molhada
de tua própria tristeza.
Às vezes vem o ar
com sua canção. Às vezes...
Sinto a alma pesada
contra tua voz ausente.

Chove. E estou pensando
em ti. E estou sonhando.
Ninguém verá esta tarde
a minha dor presa.
Ninguém. Só tua ausência
que me dói nas horas.
Amanhã tua presença regressará na rosa.

Penso – cai a chuva –
nunca como as frutas.
Menina como as frutas,
agradecida como uma festa
hoje está entardecendo
teu nome em meu poema.

Às vezes vem água
a olhar pela janela
E tu não estás
Às vezes te pressinto próxima.

Humildemente recordo
tua despedida triste.
Humildemente e tudo
humilde: os jasmins
as rosas do jardim

e meu pranto em declive.
Oh, coração ausente:
quão grande é ser humilde!

31 de dezembro de 1944

* Tradução de Pedro Fernandes


sexta-feira, 31 de março de 2017

Três poemas de Maya Angelou



AINDA ASSIM ME LEVANTO

Você pode me inscrever na história
Com as mentiras amargas que contar
Você pode me arrastar no pó,
Ainda assim, como pó, vou me levantar

Minha elegância o perturba?
Por que você afunda no pesar?
Porque eu caminho como se eu tivesse
Petróleo jorrando na sala de estar

Assim como a lua ou o sol
Com a certeza das ondas no mar
Como se ergue a esperança
Ainda assim, vou me levantar

Você queria me ver abatida?
Cabeça baixa, olhar caído,
Ombros curvados como lágrimas,
Com a alma a gritar enfraquecida?

Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal
Só porque eu rio como se tivesse
Minas de ouro no quintal

Você pode me fuzilar com palavras
E me retalhar com seu olhar
Pode me matar com seu ódio
Ainda assim, como ar, vou me levantar

Minha sensualidade o agita
E você, surpreso, se admira
Ao me ver dançar como se tivesse
Diamantes na altura da virilha?
Das choças dessa história escandalosa
Eu me levanto
De um passado que se ancora doloroso
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e irrequieto
Indo e vindo contra as marés eu me elevo
Esquecendo noites de terror e medo
Eu me levanto
Numa luz incomumente clara de manhã cedo
Eu me levanto
Trazendo os dons dos meus antepassados
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto

* Tradução de Francesca Angiolillo. Publicado inicialmente na Folha de São Paulo.


ROSTOS

Rostos e mais se lembram
depois rejeitam
os dias marrom caramelo da juventude.
Rejeitam a teta chupada de sol das
manhãs de infância.
Furam canos de arma no olhar paralisado de fé de uma boneca predileta.
Inspira, Irmão,
e desloque o ódio do momento com amor organizado.
Um poeta grita “CRISTO ESPERA NO METRÔ!”
Mas quem que vê?


HOMENS

Quando eu era nova, tinha por hábito
Observar por trás das cortinas
Homens que subiam e desciam a rua. Os homens da manguaça, os homens de idade.
Homens moços afiados feito mostarda.
Veja. Os homens estão sempre
Indo a algum lugar.
Sabiam que eu estava lá. Quinze
Anos e faminta por eles.
Sob minha janela, eles paravam,
Os ombros altos como os
Peitos de uma moça,
A cauda dos casacos batendo
Naqueles traseiros,
Homens.
Um dia eles te seguram nas
Palmas das mãos, gentis, como se você
Fosse o último ovo cru do mundo. Então
Te apertam. Só um pouco. O primeiro
Aperto é bom. Um abraço rápido.
Suave na sua fraqueza. Um pouco
Mais. A dor começa. Arranca um
Sorriso que contorna o medo. Quando o
Ar desaparece,
A mente estoura, explodindo com violência, breve,
Como a cabeça de um fósforo. Estilhaçada.
É o seu sumo
Que escorre pelas pernas deles. Mancha os sapatos.
Quando a terra se põe outra vez no lugar,
E o gosto tenta voltar à língua,
Seu corpo já se fechou. Para sempre.
Chave nenhuma existe.

Então a janela se cerra toda sobre
Sua mente. Lá, além
Do balanço das cortinas, os homens caminham.
Sabendo algo.
Indo a algum lugar.
Mas desta vez eu vou só
Ficar aqui e observar.

Talvez.


* Traduções de Adriano Scandolara. Publicado inicialmente no blog Escamandro.