segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Dois poemas de Giórgos Seféris



SÃO ASSIM OS TÚMULOS

São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio,
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.

E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.

Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.

São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.
Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.


EXISTE

Existe, pelos deuses cruéis predestinada,
uma dor universal,
e cada um de nós dela pega a sua parte,
quanto aguente levar.

Julgamos insensatos
os que, carregando pressurosamente nos ombros
mais do que podiam carregar,
aliviam assim a carga comum:
os heróis, os mártires, os criminosos.

Rogo-lhes que nos perdoem.
Recordamos.


* Tradução José Paulo Paes

sábado, 28 de janeiro de 2017

Três poemas inéditos de Oswald de Andrade



música

Nêgo du bombo
Quano vae
Tocano marcha
Nêgo da caxa
Bota o pé
No carcanhá
Caxa véia
Já tem mais
De mile rombo
Nêgo du bombo
Tem pé de chapuá


poema pontifical

Vittel tanto de tanto
Cheguei da Suíça
O governo mandou pôr anil
No Lago Lemano
Sarei da doença
Morro da cura
Nesta Lorena que não vale
A de Guaratinguetá


que felicidade

A Dolur

Ontem às 18 horas
Foi dia de Milagre
Nossa Senhora do Amor
Endireitou minha vida

Ontem às 18 horas
Fiquei noivo
Nossa Senhora do Brasil
Vai ser nossa madrinha

* Publicados no jornal O Globo em 28 de janeiro de 2017.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Dois poemas de Gerald Brenan



ANTES DA GUERRA

Ah, a grama do jardim crescerá muito,
lutará para chegar acima das flores,
pelo amor fixado no firmamento,
pelo desejo entre os dois compartilhado?

Ah, as flores levantarão a cabeça,
do gramado, cabeças murchas,
de sua cama fresca e musgosa,
se amarão no verdoso musgo gris?

E levantaria eu um olho nostálgico
para assim enobrecer minhas esperanças e meu coração
se fosse doce o dia que hoje passa,
se a alegria comparecesse para não partir?

Miserden, junho de 1913


A GUERRA

Deambulo por jardins abandonados,
e arranco as últimas flores de novembro.
Os escombros caídos sobre as rotas de acesso;
a madeira podre, ainda pintada de verde,
foi uma vez o canteiro de ramagens
que estiveram envoltas em madressilva.
Os caracóis saíram da caixa da fronteira.
O musgo é verde sobre as rochas.
As flores de pedra, todas mortas.
Vejo a cabeça seca de um girassol.
Oh, girar não mais com as horas!
Murcham todas tuas flores amarelas.

Hébuterne, novembro de 1915

* Traduções de Pedro Fernandes