sexta-feira, 14 de abril de 2017

Quatro poemas de Robert Lowell



O PESCADOR BÊBADO 

A chafurdar neste maldito antro
Eu lanço o anzol ao peixe que me atrai
(Em verdade, do arco de jeová não pendem
Potes de ouro a vergarem-lhe as pontas);
Sangrentas as bocas, só as irisadas trutas
Mordem-me a isca. E na bolsa de lona
Em torno, outras saltavam, até que a traça
Corroeu-lhe o tecido, desgastável.

Para saber o dia, um calendário;
Um lenço, para afastar os mosquitos;
Com a tempestade, sem estofo o catre
E eu com uma garrafa sob o braço;
A garrafa de uísque cheia de iscas;
E calças de pijama: serão termos
Próprios a avaliar do verme a líquida
Raiva no ventre a fervilhar da idade?

Pescar, outrora, era questão de sorte –
Ó vento! Sopra frio, sopra quente.
Os sóis deixa ficar ou pular fora:
A vida dançava a jiga no jorro –
Do cachalote, e fluente e obscena a pesca
Do pescador lavava a consciência.
Crianças! Baba a memória, enfurecida,
Sobre a glória dos charcos do passado.

Tépido agora o rio, vaza e empoça
Suas águas cruentas em enseadas;
Dentro de meu sapato, um grão de areia
Imita a lua anta a desfazer
O Homem, e até a criação; o pútrido
Remorso empestou já a sua fonte;
Assemos de baleia a raiva trilha.
E este da velhice o caldeirão.

Não há algum modo de lançar o arpão
Fora deste dinamitado córrego?
Do pescador os filhos, quando rasas
As águas somem, têm de esquadrinhar.
Com isca untada, apanharei o Cristo
E enquanto o Príncipe da Treva espreita
Meu sangue até o seu estígio termo...
Anda sobre a água o Homem-Pescador. 

* Tradução de Octavio Mora


A HORA DO GAMBÁ 


para Elizabeth Bishop

Lá em sua morada espartana
pelo inverno todo ainda mora a solitária senhora herdeira
da Ilha Nautilus:
suas ovelhas ainda pastam nas colinas acima do mar.
Seu filho é um bispo. Seu vigia,
eminente membro de nossa comunidade;
ela chegou à senilidade.

Ansiando por
um sossego sacerdotal
como do século da Rainha Vitória,
compra mil coisas,
máculas que guardam sua praia,
e deixa que se desfaçam

A estação está doente -
perdemos nosso milionário de verão,
aquele que parecia ter saído duma revista de modas.
Seu escaler foi leiloado a pescadores.
Um vasto vermelho vivo veste a Colina Azul.

Agora nosso efeminando
decorador limpa sua lojinha para o outono;
sua rede de pescar está cheia de enfeites, rolhas alaranjadas,
e amarelas como seus banquinhos e corujinhas;
bugigangas sem venda,
ele gostaria mesmo é de se casar.

Numa noite escura
meu Ford trepou até o topo da colina;
procurei carros de namorados. Luzes baixas,
estavam alinhados juntos uns dos outros, cascos contra cascos,
onde os gavetões do cemitério da cidade...
Minha mente está doente.

Um rádio de carro choraminga
"Amor, ó displicente amor..." Ouço
minha alma doente soluçar em cada gota de sangue,
como se minhas mãos estrangulassem
cada uma de suas gargantas...
sou o próprio inferno;
não há ninguém aqui -

somente gambás que procuram
o que devorar à luz do luar.
Caminham passo a passo até o Centro;
listras brancas, chamas vermelhas de olhos lunáticos
à sombra da torre estreita e espiralada branca de cal
da Igreja da Santíssima Trindade.

Fico de pé na sacada dos fundos
e respiro ar puro -
uma gambá com uma fieira de filhotes fareja restos de comida
numa lata de lixo. Mete sua cabeça de espátula num pote
de creme de leite, abaixa sua cauda de avestruz.,
e não se deixa assustar.

* Tradução de Ary Gonzalez Galvão


A FOZ DO HUDSON 

Um homem sozinho fica ali, como a espiar as aves,
e raspa a neve salpicada em preto e branco
de uma bobina grisalha
abandonada, de cabo elétrico Westingghouse.
Ele não pode descobrir a América cantando
as cadeias dos condenados trens de carga
vindos dos trinta Estados. Que sacolejam, rangem,
rejeitam restos atirados no desvio ali embaixo.
Seu equilíbrio a custo se mantém.
Os olhos pingam
e ele vai à deriva no gelo espedaçado
estalejando o Hudson abaixo até o mar,
como as brancas placas soltas de um jogo de armar.

O gelo desce pro mar, qual relógio, em tique-taque,
Um negro torra
sementes de trigo na fumaça de carvão
que escapa de uma barrica perfurada.
Ar químico
invade New Jersey,
e cheira a café.

Do outro lado do rio
as cumeeiras das fabricas dos subúrbios tostam
ao sol amarelo-súlfur
da paisagem imperdoável.

* Tradução de Aíla de Oliveira Gomes.


NOITE DO SUOR

Mesa de trabalho, desalinho, livros, o abajur de pé,
coisas comuns, meu equipamento parado, a velha vassoura,
mas vivo num quarto arrumado,
há dez noites tenho sentido cãibras
formigando todo o branco manchado de meu pijama...
Um sal adocicado me perfuma e minha cabeça está molhada,
todo o mundo flutua e me diz que tudo vai bem;
o calor de minha vida encharca-se do suor da noite ─
uma vida, uma obra! Mas a descida vertiginosa
e o egoísmo da existência nos secam completamente ─
dentro de mim há sempre a criança que morreu,
dentro de mim há sempre o seu desejo de morrer ─
um universo, um corpo... nesta urna
a noite animalesca sua toda a ferida da alma.
Atrás de mim! Você! Sinto outra vez a luz
iluminar minhas pálpebras de chumbo,
enquanto os cavalos de cabeça cinza relincham
à procura da fuligem da noite.
Encharcado chapinho-me nos salpicos do dia,
um monte de roupa molhada, amargurado, trêmulo,
vejo minha carne e lençóis banhados de luz,
meu filho se explodindo em dinamite,
minha mulher... sua leveza muda o mundo,
e rompe o filamento de teia preta que vem dos palpos da aranha,
enquanto seu coração palpita e se agita como se fosse o de uma lebre.
Pobre tartaruga, tartaruga, se não posso purificar
aqui a superfície destas águas conturbadas,
absolve-me, ajuda-me, fortificando-me,

enquanto você suporta nas costas a alternação e o peso morto do mundo.

* Tradução de Ary Gonzalez Galvão

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