sexta-feira, 7 de abril de 2017

Três poemas de Gabriel García Márquez



A MORTE DA ROSA

Morreu de mau cheiro.
Rosa igual, exata.
Subsistiu à sua beleza,
Sucumbiu à sua fragrância.
Não teve nome: talvez
lhe chamassem Rosaura,
Ou Rosa-fina, ou Rosa
do amor, ou Rosalva;
ou simplesmente Rosa,
como se chama a água.
Mais lhe valeria
ser sempre-viva, Dália,
pensamento com lua
como um ramo de acácia.

Mas ela será eterna:
foi rosa; e isso basta;

Deus a gurde em seu reino
à margem direita do alvorecer.

1945


SONETO QUASE INSISTENTE NUMA NOITE DE SERENATAS

Queria uma mulher de sangue e prata.
Qualquer mulher. Uma mulher qualquer,
quando nas noites de primavera
se ouve distante uma serenata.

Essa música é alma. E mesmo não fosse
verdade tanta mentira seria bom
saber que sua voz sempre retrata
o coração de uma mulher qualquer.

Quero querer com música. E quero
que me queiram com tom verdadeiro
Quase em azul e quase eternamente.

Será porque esse ritmo me arrebata,
ou talvez porque ouvindo serenatas
dói-me o Coração musicalmente.

1945


CANÇÃO

Chove neste poema
Eduardo Carranza


Chove. A tarde é uma
folha de névoa. Chove.
A tarde está molhada
de tua própria tristeza.
Às vezes vem o ar
com sua canção. Às vezes...
Sinto a alma pesada
contra tua voz ausente.

Chove. E estou pensando
em ti. E estou sonhando.
Ninguém verá esta tarde
a minha dor presa.
Ninguém. Só tua ausência
que me dói nas horas.
Amanhã tua presença regressará na rosa.

Penso – cai a chuva –
nunca como as frutas.
Menina como as frutas,
agradecida como uma festa
hoje está entardecendo
teu nome em meu poema.

Às vezes vem água
a olhar pela janela
E tu não estás
Às vezes te pressinto próxima.

Humildemente recordo
tua despedida triste.
Humildemente e tudo
humilde: os jasmins
as rosas do jardim

e meu pranto em declive.
Oh, coração ausente:
quão grande é ser humilde!

31 de dezembro de 1944

* Tradução de Pedro Fernandes